
Meu pai e eu no mar da Praia Vermelha
O tempo passaria e iria deixando as coisas negativas para trás. A vida seguiu assim indo, ela sempre segue. Faculdade, o tumor cerebral que condenou minha mãe à morte para depois ser extirpado numa revolucionadora cirurgia na Suécia, meu casamento, nascimento dos filhos, abandono da carreira acadêmica, trabalhos ora inovadores ora burocráticos com tecnologia, participar da criação da 2B1 no MediaLab, viver o crescimento e o estouro da bolha da internet do Vale do Silício... Nesse tempo todo meu pai era figura longínqua, e eu acreditava que conseguia ter, por ele, um sentimento morno. Nem muita expectativa, nem muita mágoa. É óbvio, fui descobrir mais tarde, eu estava errado. E como, apesar de tudo, nunca rompi com meu pai, com os nascimentos das crianças eu teria gostado que ele tivesse sido um bom avô, pelo menos melhor como avô do que foi como pai. As demandas de um avô são bem diferentes das de um pai, e não raro que péssimos pais sejam avôs adoráveis e adorados pelos netos. Assim, insistimos para que ele nos procurasse e desenvolvesse um relacionamento com os netos, primeiro com a Naná (Anna), mais velha, depois com o Pepê (Pedro). Além do mais, ele representava o lado europeu da família, que os dois netos, portadores de passaportes suíços, quase nada conheciam.
Quando a Anna nasceu, em 1991, estávamos morando, a Clélia e eu, recém casados, em Guararema, perto de minha avó e de tia Yolanda, numa chácara com casa muito precária, mas um lugar bonito, em frente a um rio Paraíba naquele trecho ainda limpo, com uma piscina apetitosa, muitas árvores, um pequeno pomar e uma churrasqueira perto da margem do rio. Como a gente ia e voltava para e de São Paulo todos os dias, a coisa acabou ficando pesada e não durou muito tempo. Mas o fato é que ainda estávamos por lá quando ele foi fazer, num sábado cedo, uma primeira visita para conhecer a a neta (e a casa). A Marie naturalmente não foi, alegando que não podia deixar a casa sozinha.
A primeira coisa engraçada, quando meu pai entrou em casa, foi que ele parou nos cachorros (Olívia, Margarida e Lolita), que ele também não conhecia, para quem fez festa por alguns minutos antes de pensar em ver a neta. Isso era bem ele. Os cachorros o atraíam muito mais do que uma bebezinha, ainda que esta fosse a primeira neta. Depois, claro, ele viu a neta, pegou no colo, fez aqueles comentários típicos, achou-a com cara e jeito de Aubert, cometeu algumas piadinhas e a gente se sentou na varanda para beber e conversar. Então o telefone tocou. Era a Marie, de Embu-Guaçu, desesperada, dizia que tinha perdido o controle do carro, o qual estava preso num barranco, e ela naturalmente precisava dele para tirar o carro de lá. Jean tentou argumentar, ver se não havia outra solução, mas não. Tinha que ser ele para resolver, ele tinha que voltar correndo. A coisa já seria ruim em si, mas piorava se se levasse em conta que Embu-Guaçu e Guararema são duas cidades da Grande São Paulo, a primeira no extremo da região sul, a segunda no extremo norte, entre Mogi das Cruzes e Jacareí. Então, tendo-se que atravessar São Paulo pelas marginais Tietê e Pinheiros de ponta a ponta, a viagem entre as duas acaba ficando considerável. Marie seguiu o padrão de sua vida, inventando uma crise qualquer para ter Jean por perto e boicotando qualquer tentativa de vida própria dele. O resultado foi que meu pai não ficou, naquele dia, mais do que meia hora com a gente. Foi a única vez que ele foi a Guararema, para a casa onde morei por três anos.
Depois, quando nos mudamos de volta para São Paulo, os contatos seriam progressivamente menos raros. Quando vinha a São Paulo sem a Marie, para deixar ou pegar hóspedes (cachorros) em suas casas, e calhava, ele passava em casa para filar bóia e conversar um pouco. Isso começou a acontecer há uns quinze anos, e há uns dez ele recebeu o diagnóstico da fibrose pulmonar. Como no começo a doença era quase assintomática (com exceção daquela persistente tossezinha e da leve falta de fôlego), ele levava uma vida normal, e continuava nos visitando. A frequência? Talvez uma vez a cada dois meses, ou algo assim. Uma ou outra vez ele encontrou tempo e levou a Anna e o Pedro ao MASP, a uma mostra sobre Napoleão e outras boas exposições que apareciam. As crianças gostavam, pois era dentro de um museu que o vovô Jean melhor mostrava suas qualidades, explicando e contextualizando tudo o que eles viam. Conforme a doença foi avançando, ele paradoxalmente passou a nos ver mais. Ele vinha a São Paulo para visitas médicas, e já não conseguia dirigir bem à noite, então dormia em nossa casa algumas vezes. Ora o Pedro, ora a Naná cediam o quarto para ele, e o faziam, no começo, com bastante tranquilidade. É que nas primeiras vezes em que ele dormiu em casa, havia a expectativa geral, minha inclusive, de que se materializaria aquela tão desejada maior intimidade com o “vovô Jean”. De manhã, ele gostava de ir levar as crianças à escola comigo e, se calhasse de ser hora do almoço, de ir buscá-los. Ele foi ficando mais emotivo, e contava e recontava as histórias da infância na Europa, dos tempos de escoteiro, da viagem para Mato Grosso, de quando foi, sozinho, de Paraty a Ubatuba, pela mata, seguindo a antiga linha de telégrafos do tempo do Império, com um mapa da mesma época, e de como se perdeu e foi salvo por uma família de caiçaras que viviam de plantar mandioca, isolados no sertão de Ubatumirim, e de como ele foi então convidado e compareceu a uma festa de casamento no meio do nada, no meio da mata, no sertão entre Paraty e Ubatuba...
Ele frequentava bastante também, nessa época, o médico “do prostate”, algo que representava um prato cheio para as piadas em casa, agora com os netos já mais crescidos. Ele não conseguia se defender e, apesar (e por causa) da aparente fleuma e do humor inglês, caía em todas as provocações que fazíamos sobre o relacionamento todo especial que, dizíamos, havia entre ele e o proctologista. Perguntávamos se o sujeito nem o convidara para jantar, se foi examinando sem mais nem menos; se ele percebera se, durante o exame, as duas mãos do médico estavam apoiadas nos seus ombros, essas coisas. Ríamos, ele ria junto.
Foi nesse período, ainda, que ele mais nos deu presentes, tanto para mim quanto para Clélia e as crianças. Para estes, eram em geral as coleções de banca de revista, soldadinhos, aviões, dedais, bichinhos de cristal, com alguns dos quais ele acabou gastando um bom dinheiro. Para nós, adultos, eram peças da família, com história, como quadros e documentos, e principalmente livros: alguns novos e a maior parte trazidos da casa dele, “onde não estavam cabendo”, mas alguns muito bons. Foi nessa leva que vieram parar em casa as edições raras dos quadrinhos do parente Töpffer, livros da editora de meu avô em Genebra, fotos, documentos... E aí o problema era o cheiro. Com o passar dos anos, acredito que o convívio constante com os cachorros foi anestesiando o olfato dele, e ele já não percebia o cheiro ruim. Os livros exalavam um pesado odor de urina, em certos casos tão intenso que fomos obrigados a jogar fora (obviamente, não os raros). Pior, a questão do cheiro começou a ficar complicada com ele propriamente dito. Meu pai, como quase todo europeu, nunca foi um fanático por chuveiro. Quando dormia em nossa casa, ele raramente tomava banho, à noite ou de manhã, mesmo que tivesse transpirado, rodado pelo centro da cidade, carregado cachorro. A Clélia deixava um jogo de toalhas sobre a cama dele, e o jogo de toalhas permanecia intocado. O problema é que, agora, ele não estava mais sentindo os odores, dele ou do mundo. Se os do mundo são mais ou menos sem solução, os dele passariam com banho, mas ele não tomava. A coisa chegou num ponto em que, quando ele avisava que ia em casa, pensávamos em colocar forro no sofá, para não ficar cheiro. E, quando ele tirava os sapatos, na sala, o chulé era tão forte, tão azedo, que às vezes não dava para ficar ali.
Claro, o chulé não era o problema em si. Era a metáfora. De odor pesado, mas metáfora. É que aquela expectativa de construir uma maior intimidade com o vovô Jean acabou por se revelar mais uma frustração. Ele conversava, mas só falava dele. Não ouvia, não se interessava pelas histórias dos netos, assim como ao longo dos anos não tinha se interessado pelas minhas. Aquele gesto de ceder o quarto para o vovô, que a Naná e o Pedro faziam, no começo, com tanto gosto, era agora alvo de disputa entre os dois: cada um queria que o quarto do vovô fosse o do outro. À noite, a coisa acabava sobrando para mim. Depois do jantar, todos davam um jeito de sumir, um após o outro, para seus quartos, me deixando na sala, a sós, com ele. E então, quando não tinha mais jeito, e a conversa já se arrastara por demais, o que me salvava era algum documentário, qualquer um, que eu pescasse no National Geographic ou do Discovery, que ele assistia meio a contragosto, dizendo que, se fosse para assistir a TV, que fosse um bom filme, ou documentário, mas que preferia, sempre, um bom livro.
Naquela fase, conforme a doença avançava, ele falava muito em ir para Ubatuba com a gente. Parecia uma dessas conversas platônicas, dessas coisas que nunca se realizam. Afinal, se a Marie não deixara ele ficar nem por um dia em Guararema, como permitiria um fim de semana inteiro longe? E ele já não estava nada bem fisicamente, muito magro, pele e osso, embora ainda estivesse levando uma vida razoavelmente normal e respirasse sem o auxílio de cilindros de oxigênio. Mas a Marie deixou, provavelmente estava querendo dar uma descansada dele e do trabalho que ele dava, e já não havia mais motivo (se é que algum dia houve) para ter ciúmes: não, naquela altura do campeonato, nenhuma virgem donzela iria roubá-lo, e levá-lo para um palácio encantado, em Ubatuba. Então, numa certa sexta-feira à tarde, ele chegou em casa, com sua mala, todo animado para a viagem. Viagem que, de uma forma geral, foi muito gostosa. Demos bastante risada, os netos curtiram o avô, ele se emocionou revendo Ubatuba e, para não decepcionar a torcida do velho Monsieur Hulot, fiel desde sempre (desde os remotos tempos da Ford Belina com contact padrão cerejeira na porta), ele ficou fotografando nosso amigo Carlinhos, surfista de infinita paciência, com roupa de borracha, se alongando, fazendo a cena parecer o encontro de um fascinado dr. Livingstone, em 1855, com um guerreiro africano nas margens do rio Zambezi. De dentro d’água, lá no outside, a Clélia e eu olhávamos a cena na praia longe: meu pai, bermuda cáqui, boné australiano e óculos escuros, indo de um lado para o outro, máquina fotográfica na mão, fotografando e conversando com o Carlinhos, e ríamos sem parar, com pena de nosso amigo. De minha parte não havia, mais, então, constrangimento. Havia leveza, compaixão e riso.
Me alonguei, contudo. Como disse, a viagem foi divertida, foi leve. Deixou, pelo menos para mim, lembranças boas e inesquecíveis. O que pegou foi o cheiro, o que acabou sendo algo quase trágico, e no fim das contas muito divertido. Viajamos à noite, era inverno, fazia frio. E não dava para fechar as janelas do carro. Era aquele perrengue constante, abre, sente frio, fecha, não aguenta o cheiro. E ele, cujo olfato já não pegava mais nada, não entendendo aquele abrir e fechar de janelas, sem parar, entre São Paulo e Ubatuba. Escrevendo assim parece exagero, parece um pouco de maldade. Mas não era só eu. Ninguém no carro estava aguentando, as crianças estavam quase morrendo. Acabamos sobrevivendo, mas chegamos em Ubatuba praticamente sem fôlego. E então, uma vez transcorrendo o fim de semana, ele dizia que não precisaria tomar banho. “Como não, pai? São dois dias aqui...”. “Non, veja bem. Eu tomou banho no sexta, antes de sair do Embu-Guaçu. Agora é sábado, eu non transpirou, non sujou. Amanhã nós vai embora, eu toma banho em Son Paulo.”. “Mas pai, toma aqui, vai ser mais confortável, você vai se sentir bem, vai refrescar, vai dormir melhor.” “Non, non, é melhor tomar em Son Paulo”. Então a família, fazendo piadas, rindo da situação, se desesperou.
Como encarar a viagem de volta, naquelas condições? Era uma possibilidade que ninguém conseguia imaginar. Filho, nora e netos, só o que discutíamos era como arrastar o “vovô Jean” para o chuveiro. E também, constrangidos, não tínhamos coragem de falar a verdade, de dizer que ele estava cheirando mal, que banho não era uma opção, mas uma necessidade. Então tentávamos ser sutis, mas a coisa não progredia. Então partimos para um plano desesperado, e arriscado. Decidimos convencer o vovô Jean de que ele devia dar um mergulho. O problema é que ele tinha medo. Ele se lembrava da Praia Vermelha de quando morou em Ubatuba, e se lembrava de quase ter morrido ali. Na verdade ela não é tão perigosa assim, mas, sendo uma praia de tombo, com algumas correntes de retorno traiçoeiras, ela pode realmente assustar, e até matar, um desavisado. Os surfistas, especialmente no verão, não param de socorrer banhistas desesperados (eu mesmo já fiz isso muitas vezes, inclusive numa ocasião inesquecível em que um casal se afogava, e quando eu cheguei com a prancha para tirá-los do mar, ajudando a mulher primeiro, o marido voou para mim, implorando para ir antes. Dei uma dura e o mandei esperar, que ia salvar a mulher dele e voltaria para tirá-lo de lá, mas o valente cavalheiro não queria aceitar isso de jeito nenhum. Os dois sobreviveram, mas não sei se o casamento deles teve a mesma sorte).
O fato é que, sem alternativa melhor, fizemos de tudo para convencer meu pai a dar um mergulho, e ele acabou topando. Eu fiquei o tempo todo com ele, amparando e ajudando, e acho que, no fim das contas, foi bom para ele. Jean não via o mar havia muitos anos, e aquele seria o último mergulho da vida dele. Agora, tirando isso, que a coisa foi complicada, isso foi. A medicação para a fibrose pulmonar devorara toda a musculatura dele, e mesmo com o mar estando longe de seus dias mais pesados, a força das ondas, na Vermelha, quebrando rente à areia, é considerável. Uma onda acabou por derrubá-lo, e ele não tinha força, não apenas para se levantar, como até mesmo para me ajudar a fazê-lo. Com um metro e oitenta e seis de altura, e ossatura pesada, mesmo magro ele era difícil de erguer. E as ondas vinham em série, levantando fortes e quebrando no raso, na areia. Fiquei, ficamos todos, realmente assustados, olhos arregalados. E se ele, com a ossatura enfraquecida pela cortizona, sofresse uma fratura ali? Ou se, no afobamento, engolisse água? Mas no fim das contas tudo acabou dando certo, ele saiu do mar, cambaleando feito um bêbado, mas saiu, e rindo, indo dali direto para o chuveiro. No fim da história, ele estava muito feliz com o mergulho e todos nós pudemos respirar melhor no regresso a São Paulo.
Só agora me dou conta, aquela foi a única viagem que fiz na vida com meu pai. Foi também a última viagem dele, a última vez que esteve em Ubatuba, a última vez que viu, sentiu e cheirou o mar, aquele imenso e mágico universo líquido que ele tanto amou.