Revista Trip

 
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Postado em 09.03.2010 | 19:03 | André Caramuru Aubert
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Em Ubatuba, o ultimo banho de mar de meu pai

Em Ubatuba, o ultimo banho de mar de meu pai

Eu já experimentara perdas na vida, e elas foram, cada uma do seu jeito, sofridas. Perdi, muito cedo, tia Stellinha, uma sombra que me acompanhou pela infância afora. Mais tarde, adolescente, foi meu avô Brenno, um fim sofrido, pois um AVC o derrubou e incapacitou, mas a morte só viria uns cinco anos depois. Me lembro daquele gigante que foi, para mim, meu avô, sem conseguir andar, ou falar direito, a boca mole, pedaços de arroz no canto do lábio, à mercê de uma mulher de conduta duvidosa que não ligava para ele e de um enfermeiro, na melhor das hipóteses, profissional. Nunca me esqueci de um dia em que fui visitá-lo, o apartamento enorme e sombrio, ele na cama, as persianas do quarto abaixadas, cheguei perto, ele agarrou minha mão com toda a força que tinha, olhou em meus olhos, desesperado, triste, chorando. E berrou, se é que aquela voz torta e falha que saía dele, naquele momento, podia ser considerada um berro, e me mandou embora. “Vai embora, vai embora, não fique aqui, vai embora!” Era demais para ele, figura forte e altiva que sempre fora, ser visto naquele estado pelo neto. Eu obedeci e fui, com um travo na garganta, e lá embaixo consegui manter as aparências e dizer até logo ao porteiro, quando só o que eu queria era chorar, chorar muito e bem alto. Depois houve perdas de amigos, a pior tendo sido a do Nica, amigo tão querido, companheiro de tanta coisa, incluindo a viagem para Trancoso no Jipe Bandeirante dele, ouvindo Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e o Velô, de Caetano, que tinha sido lançado naquele verão, viagem na qual conheci a mulher com quem me casaria e onde todos nós quase morremos afogados, num fim de tarde na foz do rio Caraíva, graças ao excesso de maconha do maluco que pilotava a Onça, aquela grande e antiga canoa a vela.

Depois, no caminho, a morte foi recolhendo muita gente, a Bê, a Yá, tio Vicente... E por último, não fazia muito tempo, haviam morrido perto, uma da outra, minha avó Cleonice e Tia Yolanda, arrancando de mim tanta coisa, tanto afeto, tantas histórias. Meu pai? Ora, para perder meu pai eu estava pronto. Piores perdas, eu tinha certeza, tinham acontecido antes. Com relação a Jean eu achava que a casca já estava grossa, a cicatriz previamente formada, a imunidade, garantida.

Praia Vermelha, Ubatuba, guache de Jean Aubert

Praia Vermelha, Ubatuba, guache de Jean Aubert

Na mesma tarde do dia em que falei com B. pelo celular, lá estávamos no hospital, Clélia, as crianças e eu a fim de fazer a solicitada visita. Não sabíamos o que iríamos encontrar, mas esperávamos uma situação realmente ruim. B. estava lá quando chegamos, lágrimas nos olhos, num estado de pré-luto, e me abraçou bem forte, como se nada (ou algo) tivesse se passado naqueles dois anos e pouco em que não nos falamos. Estávamos todos, naquele momento, no quarto de meu pai. Ele parecia, mesmo, estar morrendo. Muito magro, estirado na cama, parecendo foto de judeu em campo de concentração ou, para fazer justiça a seu fenótipo, prisioneiro de guerra inglês em campo japonês na Malásia. Não sabíamos ainda que apenas parte daquele estado em que ele se encontrava se devia à doença. Porque a outra parte se devia, na realidade, ao possível fato de ele ter sido tratado, naqueles últimos anos, em sua casa, como, de fato, um prisioneiro de guerra. Meu pai chamou a todos para perto da cama, beijou e se deixou beijar. Era difícil não ficar contaminado por aquele ambiente de instantes finais, de extrema, por assim dizer, unção. Depois que todos foram beijados, ele, com um gesto de mão, pediu que se retirassem, menos eu. Era a conversa que ele queria ter comigo, a razão pela qual me chamara ao hospital. Falando baixo, quase sussurrando, ele admitiu que havia sido um péssimo pai, que sabia que, com relação a mim, não havia atingido os requisitos mínimos que são requeridos à paternidade.

Ele então pediu perdão.

Os olhos molhados de lágrima, a voz fraca, chorosa. Foi a conversa que, a partir de então, eu passei a chamar de “a conversa do perdão”. Eu fingi que acreditava que ele era sincero, ele fingiu acreditar que eu perdoava mesmo. E na verdade, eu perdoei. É que não se tratava disso, não acredito nisso. O que ele foi, como pai, e antes como filho, irmão e marido, são coisas que estão gravadas na história dele e na das pessoas que com ele conviveram, independentemente de se pedir ou não, e de se conceder, ou não, o perdão. Os buracos que ficam de anos e anos, as marcas, as mágoas e carências, nada disso se resolve com conversas de cinco minutos junto ao leito de morte. Leito que, além do mais, viríamos a perceber nos dias, semanas e meses que viriam a seguir ao nosso encontro, nem mesmo de morte era, ainda.

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Postado em 04.03.2010 | 11:03 | André Caramuru Aubert
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Oh, sister, when I come to lie in your arms
You should not treat me like a stranger.
Our Father would not like the way that you act
And you must realize the danger.

Oh, sister, am I not a brother to you?
And one deserving of affection?
And is our purpose not the same on this earth,
To love and follow his direction?

Bob Dylan e Jacques Levy, "Oh Sister"




Uma noite sonhei com meu pai, que ele não estava bem. Na manhã seguinte, fui trabalhar, a pé, sozinho, pensando nisso.

Eu não via meu pai havia uns três anos. Ele parara de vir para nossa casa em São Paulo, a doença não estava deixando. Quando vinha para a cidade, era para ir ao médico, Marie dirigia o carro e ele viajava no banco de passageiros, respirando com a ajuda de um cilindro de oxigênio portátil. Às vezes nos falávamos ao telefone, mas eram conversas que eu na verdade evitava, pois eram pesadas e tristes. Ele falava mal, muito ofegante, o tempo todo tendo que parar para respirar, e reclamava da vida, da saúde, da mulher, da falta de dinheiro, pedia dinheiro. Contava que alguns amigos de infância, da Suíça, inclusive uma ex-namorada, estavam ajudando. Eu tentava me blindar emocionalmente. O que podia fazer? Meus próprios problemas não eram poucos, e qualquer coisa, com ele, precisava passar pelo severo e insano controle aduaneiro de Marie. E além de eu não ter dinheiro sobrando, não me conformava com a ideia de ajudá-lo, pois o cobertor era curto, se eu desse a ele faltaria ainda mais para outras coisas e, afinal de contas, ele nunca tinha contribuído financeiramente com qualquer coisa em minha vida. Médico, remédio, escola, roupa, viagens, terapia, comida, primeira moto, primeiro carro, tudo fora pago por minha mãe e por meus avós maternos. Então agora eu iria cair em chantagem emocional, algo em que, eu sabia, ele era um especialista? Não, não mesmo. E não era somente isso. Continuava a haver mais de cem cachorros na casa de Embu-Guaçu. Com “apenas” dois cachorros em minha casa, eu sabia muito bem o quanto cães custavam caro, em ração, veterinário, remédios, vacinas; eu sabia o quanto deveriam representar para eles, como para qualquer orçamento, cem ou mais animais. Ora, eu pensava, livrem-se desse zoológico que eu posso cogitar alguma ajuda. Não iria, em hipótese alguma, tirar da Anna e do Pedro para ajudar a sustentar uma delirante megalópole de vira-latas em Embu-Guaçu.

Mas aquele sonho ruim não saiu de minha mente pelos dias seguintes. Em algum momento contei para a Clélia, e ela curiosamente havia tido, também, um sonho ruim com ele. Na sexta-feira, criei coragem e resolvi telefonar. Falei com Marie, que desfilou um rosário de dificuldades, de como tudo estava complicado, de como meu pai, e a vida, estavam difíceis, de como ela estava sobrecarregada, mas que, apesar de tudo, as coisas estavam sob controle. Falei com ele também, conversa difícil, respiração difícil. Ele não estava nada bem. Eu não queria, mas o sentimento de culpa foi crescendo dentro de mim. Combinei que, num fim de semana próximo, colocaria todo mundo no carro e iríamos até lá, para uma visita.

No comeco da decada de 50, nessa casa, meus pais brincav am de viver como caicaras

No comeco da decada de 50, nessa casa, meus pais brincav am de viver como caicaras

Com B. eu também não falava havia algum tempo. Por acaso, eu colocara para tocar no carro o CD Desire, de Bob Dylan, do qual não chegava perto havia tempos e, ouvindo Oh Sister, me lembrei dela, de meu pai e pensei no absurdo que eram as relações pessoais neste lado da família. Uma história que eu insistia em esconder de mim mesmo, mas que teimava em incomodar, naquela mistura complicada de rejeição, raiva, frustração e culpa. No fim de semana vi uma ligação perdida no celular, de Embu-Guaçu, feita enquanto eu estava surfando, e fiquei com preguiça de ligar de volta. Deixei para segunda-feira, mas acabei me esquecendo do assunto. Se for importante, pensei, me ligam de novo. No começo da semana, chego em casa cedinho, depois de levar as crianças para a escola e recebo o recado que B. me ligou. Era terça-feira, dia de rodízio, em que invariavelmente deixo o carro em casa depois do circuito escolar matinal e vou a pé para o escritório, e liguei para ela, de volta, do celular, enquanto atravessava o Cemitério São Paulo. “Nosso pai está muito doente, muito ruim, levou um tombo em Embu-Guaçu, está internado no São Luiz e quer ver você.” Ah, então foi isso, pensei, a ligação perdida no fim de semana. “Puxa, na sexta-feira eu falei com ele, ele estava bem, quer dizer, bem não, mas estava estável, até prometi visitá-lo um dia desses...”. “É, foi um perrengue, no domingo. Ele caiu, minha mãe ligou de lá, precisava internar, mas ela não queria deixar ele ir, ele tinha muita dor, mas não tinha como, meu marido foi para lá, foi um sufoco colocá-lo no carro, com o oxigênio e tudo o mais, mas o sufoco maior foi convencer minha mãe a deixá-lo sair de lá. No fim, ninguém achava a carteirinha do plano de saúde e ele conseguiu ser internado só depois das dez da noite.” Nas entrelinhas, ela mostrava sua raiva contra o “irmão”, pois o marido dela cuidara de coisas que, na visão dela, seriam tarefas minhas.

De fato, eu não falava com B. havia pelos menos uns dois, talvez três anos, desde a última internação de meu pai, a que marcou o fim definitivo de uma vida parecida com normal dele, quando numa queda, fraturou a perna junto à bacia. Minha história com B. é, está claro, complicada. Ao longo da infância e adolescência, por conta do escasso convívio, acabei crescendo (e me considerando) um filho único. Se me perguntavam se eu tinha irmãos, eu prontamente respondia que não. Não era uma negativa a respeito da existência dela, nem mesmo um sentimento de revolta. Eu simplesmente me esquecia, ou às vezes era mais fácil responder dessa maneira, ao invés de ter que explicar toda a complexidade de minha situação familiar. Houve uma situação em que pude perceber claramente a mágoa de B. com relação a isso. Foi numa festa de aniversário minha, no apartamento de minha mãe, eu devia estar comemorando uns dezoito ou dezenove anos, convidei a B. e havia uns vinte ou trinta amigos por lá. Então, em certo momento, eu estava falando com um amigo junto à mesa de jantar, a B. se aproximou e eu a apresentei a ele. A reação foi: “Você tem irmã???? Mas você sempre falou que era filho único!!!”. Eu nunca me esqueci da expressão de tristeza, de desapontamento, de B., naquele momento. Mais tarde, porém, nós começamos a conviver mais. Eu já havia terminado a faculdade e estava com a Clélia, que não se conformava com meu bizarro status fraterno, e agitou o que pôde para que a B. e eu desenvolvessemos um relacionamento de verdade. Então, especialmente a partir do nascimento da Anna e do Pedro e, depois, com o nascimento do filho dela, ela passou a viajar com Ubatuba conosco, passamos vários fins de ano juntos na praia, vimos Copa do Mundo juntos, nos víamos em São Paulo em fins de semana, jantávamos em família, enfim. Mas, apesar dos esforços, apesar do marido de B. ser uma ótima pessoa e nos darmos bem, alguma trava da infância, das mútuas carências, haveria de ficar...

... E então, na ocasião daquela última internação, B. e a mãe dela, Marie, decidiram dar de chefinhas, e numa certa tarde me escalaram para ficar com ele durante a tarde. Afinal, a B. tinha seu emprego e Marie, iria buscar (ou entregar) uns cães-hóspedes em algum lugar. Eu disse que não podia, que também precisava trabalhar e que, aliás, naquele dia, tinha coisas urgentes para resolver. E, além do mais, argumentei, não era necessário que houvesse alguém com ele vinte e quatro horas por dia, que ele estava lúcido e consciente, num hospital de primeira linha, e que, diante de qualquer problema, bastava apertar a campainha que uma enfermeira viria. Ah, elas replicaram, era preciso ficar lá porque o médico dissera que passaria à tarde. “Ora, a que horas o médico vai? Eu me organizo, dou uma escapada e vou até lá.” Mas não, ele não dissera a hora, só que seria “à tarde”. “Então o médico não pode precisar uma hora certa para a visita de cinco minutos que supostamente fará e por isso eu tenho que dar plantão a tarde toda no hospital? Além do mais, Jean não está inconsciente, pode conversar e, se for o caso, existe uma coisa chamada celular, e eu posso falar com o médico por telefone enquanto ele estiver lá.” B. não gostou, mas não reagiu de imediato e, a partir deste ponto, eu pude fruir de algumas horas de silêncio.

No começo da tarde, quem me liga é o marido de B. Eu estava no banco, apagando incêndio. Ele, visivelmente contrariado, e seguramente obedecendo ordens, quase implora: “André, você não pode mesmo ficar lá agora à tarde?” Ele era boa pessoa, conciliador, nunca tivemos problemas entre nós, e sua voz denotava claramente o medo de que, diante de uma recusa minha, emergiria uma situação radical, de conflito e até de rompimento, algo que ele demonstrava não querer de forma alguma. Mas eu, por um lado, simplesmente não podia ir. Por outro, achava que aquela solicitação era absurda e desnecessária. E havia ainda um sentimento forte, em mim, de que com relação a meu pai eu iria, sempre, até um certo ponto, mas que jamais passaria dele. Era algo como: “se meu pai pôs limites estritos naquilo que ele dedicou a mim, eu farei com ele a mesma coisa.” E meu limite era o de que faria qualquer coisa que não atrapalhasse minhas demandas profissionais e as necessidades de minha mulher e filhos.

Seria aquela história de passar lá à tarde, então, um teste? Quereriam “eles” testar meus laços, meu comprometimento de filho e irmão? Seria isso? Ora, se fosse mesmo um teste, que se explodissem, todos eles, com aquilo, porque que eu tinha mais o que fazer.

 

No fim das contas, não havia outra conclusão possível, aquilo foi mesmo um teste. Porque, depois disso, do lado de lá, por um bom tempo, eu só ouvi o silêncio. Pelos próximos meses, anos, não falei mais com B., seu marido ou Marie. Apenas meu pai, de vez em quando, telefonava, lá de Embu-Guaçu, ofegante, lamentante, reclamante, conversas difíceis, quase monólogos desesperados dele, que expunha todas as mazelas, tristezas e desgraças, avisando que, “qualquer dia desses, dou um jeito e acabo com minha vida de uma vez por todas”. Ameaça aliás desprovida de verossimilhança: ele não dispunha das ferramentas, e nem do espírito, para tentar o suicídio.

Foi nesse contexto, depois de uns dois ou três anos de distância, que eu tive aquele sonho, que ouvi “Oh Sister” e que retornei pelo celular o recado de B., naquela terça-feira, enquanto atravessava o Cemitério São Paulo. Ok, então era isso: meu pai estava hospitalizado, a situação parecia terminal e ele queria me ver. Eu iria, claro. Eu ainda acreditava que conseguiria lidar com aquilo tudo sem acionar o emocional, apenas pragmático, com frieza e a razão ao meu lado. Nestes últimos anos, minha mulher me perguntou mais de uma vez: “o que você vai sentir quando seu pai morrer? Você vai sofrer? Vai ficar triste?” Eu dizia: “Não sei. Acho que não.” Mas era pra fazer tipo, para não parecer insensível, porque na verdade, na verdade mesmo, eu achava que não iria sentir nada.

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Postado em 02.03.2010 | 13:03 | André Caramuru Aubert
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Meu pai e eu no mar da Praia Vermelha

Meu pai e eu no mar da Praia Vermelha

O tempo passaria e iria deixando as coisas negativas para trás. A vida seguiu assim indo, ela sempre segue. Faculdade, o tumor cerebral que condenou minha mãe à morte para depois ser extirpado numa revolucionadora cirurgia na Suécia, meu casamento, nascimento dos filhos, abandono da carreira acadêmica, trabalhos ora inovadores ora burocráticos com tecnologia, participar da criação da 2B1 no MediaLab, viver o crescimento e o estouro da bolha da internet do Vale do Silício... Nesse tempo todo meu pai era figura longínqua, e eu acreditava que conseguia ter, por ele, um sentimento morno. Nem muita expectativa, nem muita mágoa. É óbvio, fui descobrir mais tarde, eu estava errado. E como, apesar de tudo, nunca rompi com meu pai, com os nascimentos das crianças eu teria gostado que ele tivesse sido um bom avô, pelo menos melhor como avô do que foi como pai. As demandas de um avô são bem diferentes das de um pai, e não raro que péssimos pais sejam avôs adoráveis e adorados pelos netos. Assim, insistimos para que ele nos procurasse e desenvolvesse um relacionamento com os netos, primeiro com a Naná (Anna), mais velha, depois com o Pepê (Pedro). Além do mais, ele representava o lado europeu da família, que os dois netos, portadores de passaportes suíços, quase nada conheciam.

Quando a Anna nasceu, em 1991, estávamos morando, a Clélia e eu, recém casados, em Guararema, perto de minha avó e de tia Yolanda, numa chácara com casa muito precária, mas um lugar bonito, em frente a um rio Paraíba naquele trecho ainda limpo, com uma piscina apetitosa, muitas árvores, um pequeno pomar e uma churrasqueira perto da margem do rio. Como a gente ia e voltava para e de São Paulo todos os dias, a coisa acabou ficando pesada e não durou muito tempo. Mas o fato é que ainda estávamos por lá quando ele foi fazer, num sábado cedo, uma primeira visita para conhecer a a neta (e a casa). A Marie naturalmente não foi, alegando que não podia deixar a casa sozinha.

A primeira coisa engraçada, quando meu pai entrou em casa, foi que ele parou nos cachorros (Olívia, Margarida e Lolita), que ele também não conhecia, para quem fez festa por alguns minutos antes de pensar em ver a neta. Isso era bem ele. Os cachorros o atraíam muito mais do que uma bebezinha, ainda que esta fosse a primeira neta. Depois, claro, ele viu a neta, pegou no colo, fez aqueles comentários típicos, achou-a com cara e jeito de Aubert, cometeu algumas piadinhas e a gente se sentou na varanda para beber e conversar. Então o telefone tocou. Era a Marie, de Embu-Guaçu, desesperada, dizia que tinha perdido o controle do carro, o qual estava preso num barranco, e ela naturalmente precisava dele para tirar o carro de lá. Jean tentou argumentar, ver se não havia outra solução, mas não. Tinha que ser ele para resolver, ele tinha que voltar correndo. A coisa já seria ruim em si, mas piorava se se levasse em conta que Embu-Guaçu e Guararema são duas cidades da Grande São Paulo, a primeira no extremo da região sul, a segunda no extremo norte, entre Mogi das Cruzes e Jacareí.  Então, tendo-se que atravessar São Paulo pelas marginais Tietê e Pinheiros de ponta a ponta, a viagem entre as duas acaba ficando considerável. Marie seguiu o padrão de sua vida, inventando uma crise qualquer para ter Jean por perto e boicotando qualquer tentativa de vida própria dele. O resultado foi que meu pai não ficou, naquele dia, mais do que meia hora com a gente. Foi a única vez que ele foi a Guararema, para a casa onde morei por três anos.

Depois, quando nos mudamos de volta para São Paulo, os contatos seriam progressivamente menos raros. Quando vinha a São Paulo sem a Marie, para deixar ou pegar hóspedes (cachorros) em suas casas, e calhava, ele passava em casa para filar bóia e conversar um pouco. Isso começou a acontecer há uns quinze anos, e há uns dez ele recebeu o diagnóstico da fibrose pulmonar. Como no começo a doença era quase assintomática (com exceção daquela persistente tossezinha e da leve falta de fôlego), ele levava uma vida normal, e continuava nos visitando. A frequência? Talvez uma vez a cada dois meses, ou algo assim. Uma ou outra vez ele encontrou tempo e levou a Anna e o Pedro ao MASP, a uma mostra sobre Napoleão e outras boas exposições que apareciam. As crianças gostavam, pois era dentro de um museu que o vovô Jean melhor mostrava suas qualidades, explicando e contextualizando tudo o que eles viam. Conforme a doença foi avançando, ele paradoxalmente passou a nos ver mais. Ele vinha a São Paulo para visitas médicas, e já não conseguia dirigir bem à noite, então dormia em nossa casa algumas vezes. Ora o Pedro, ora a Naná cediam o quarto para ele, e o faziam, no começo, com bastante tranquilidade. É que nas primeiras vezes em que ele dormiu em casa, havia a expectativa geral, minha inclusive, de que se materializaria aquela tão desejada maior intimidade com o “vovô Jean”.  De manhã, ele gostava de ir levar as crianças à escola comigo e, se calhasse de ser hora do almoço, de ir buscá-los. Ele foi ficando mais emotivo, e contava e recontava as histórias da infância na Europa, dos tempos de escoteiro, da viagem para Mato Grosso, de quando foi, sozinho, de Paraty a Ubatuba, pela mata, seguindo a antiga linha de telégrafos do tempo do Império, com um mapa da mesma época, e de como se perdeu e foi salvo por uma família de caiçaras que viviam de plantar mandioca, isolados no sertão de Ubatumirim, e de como ele foi então convidado e compareceu a uma festa de casamento no meio do nada, no meio da mata, no sertão entre Paraty e Ubatuba...

Ele frequentava bastante também, nessa época, o médico “do prostate”, algo que representava um prato cheio para as piadas em casa, agora com os netos já mais crescidos. Ele não conseguia se defender e, apesar (e por causa) da aparente fleuma e do humor inglês, caía em todas as provocações que fazíamos sobre o relacionamento todo especial que, dizíamos, havia entre ele e o proctologista. Perguntávamos se o sujeito nem o convidara para jantar, se foi examinando sem mais nem menos; se ele percebera se, durante o exame, as duas mãos do médico estavam apoiadas nos seus ombros, essas coisas. Ríamos, ele ria junto.

Foi nesse período, ainda, que ele mais nos deu presentes, tanto para mim quanto para Clélia e as crianças. Para estes, eram em geral as coleções de banca de revista, soldadinhos, aviões, dedais, bichinhos de cristal, com alguns dos quais ele acabou gastando um bom dinheiro. Para nós, adultos, eram peças da família, com história, como quadros e documentos, e principalmente livros: alguns novos e a maior parte trazidos da casa dele, “onde não estavam cabendo”, mas alguns muito bons. Foi nessa leva que vieram parar em casa as edições raras dos quadrinhos do parente Töpffer, livros da editora de meu avô em Genebra, fotos, documentos... E aí o problema era o cheiro. Com o passar dos anos, acredito que o convívio constante com os cachorros foi anestesiando o olfato dele, e ele já não percebia o cheiro ruim. Os livros exalavam um pesado odor de urina, em certos casos tão intenso que fomos obrigados a jogar fora (obviamente, não os raros). Pior, a questão do cheiro começou a ficar complicada com ele propriamente dito. Meu pai, como quase todo europeu, nunca foi um fanático por chuveiro. Quando dormia em nossa casa, ele raramente tomava banho, à noite ou de manhã, mesmo que tivesse transpirado, rodado pelo centro da cidade, carregado cachorro. A Clélia deixava um jogo de toalhas sobre a cama dele, e o jogo de toalhas permanecia intocado. O problema é que, agora, ele não estava mais sentindo os odores, dele ou do mundo. Se os do mundo são mais ou menos sem solução, os dele passariam com banho, mas ele não tomava. A coisa chegou num ponto em que, quando ele avisava que ia em casa, pensávamos em colocar forro no sofá, para não ficar cheiro. E, quando ele tirava os sapatos, na sala, o chulé era tão forte, tão azedo, que às vezes não dava para ficar ali.

Claro, o chulé não era o problema em si. Era a metáfora. De odor pesado, mas metáfora. É que aquela expectativa de construir uma maior intimidade com o vovô Jean acabou por se revelar mais uma frustração. Ele conversava, mas só falava dele. Não ouvia, não se interessava pelas histórias dos netos, assim como ao longo dos anos não tinha se interessado pelas minhas. Aquele gesto de ceder o quarto para o vovô, que a Naná e o Pedro faziam, no começo, com tanto gosto, era agora alvo de disputa entre os dois: cada um queria que o quarto do vovô fosse o do outro. À noite, a coisa acabava sobrando para mim. Depois do jantar, todos davam um jeito de sumir, um após o outro, para seus quartos, me deixando na sala, a sós, com ele. E então, quando não tinha mais jeito, e a conversa já se arrastara por demais, o que me salvava era algum documentário, qualquer um, que eu pescasse no National Geographic ou do Discovery, que ele assistia meio a contragosto, dizendo que, se fosse para assistir a TV, que fosse um bom filme, ou documentário, mas que preferia, sempre, um bom livro.

Naquela fase, conforme a doença avançava, ele falava muito em ir para Ubatuba com a gente. Parecia uma dessas conversas platônicas, dessas coisas que nunca se realizam. Afinal, se a Marie não deixara ele ficar nem por um dia em Guararema, como permitiria um fim de semana inteiro longe? E ele já não estava nada bem fisicamente, muito magro, pele e osso, embora ainda estivesse levando uma vida razoavelmente normal e respirasse sem o auxílio de cilindros de oxigênio. Mas a Marie deixou, provavelmente estava querendo dar uma descansada dele e do trabalho que ele dava, e já não havia mais motivo (se é que algum dia houve) para ter ciúmes: não, naquela altura do campeonato, nenhuma virgem donzela iria roubá-lo, e levá-lo para um palácio encantado, em Ubatuba. Então, numa certa sexta-feira à tarde, ele chegou em casa, com sua mala, todo animado para a viagem. Viagem que, de uma forma geral, foi muito gostosa. Demos bastante risada, os netos curtiram o avô, ele se emocionou revendo Ubatuba e, para não decepcionar a torcida do velho Monsieur Hulot, fiel desde sempre (desde os remotos tempos da Ford Belina com contact padrão cerejeira na porta), ele ficou fotografando nosso amigo Carlinhos, surfista de infinita paciência, com roupa de borracha, se alongando, fazendo a cena parecer o encontro de um fascinado dr. Livingstone, em 1855, com um guerreiro africano nas margens do rio Zambezi. De dentro d’água, lá no outside, a Clélia e eu olhávamos a cena na praia longe: meu pai, bermuda cáqui, boné australiano e óculos escuros, indo de um lado para o outro, máquina fotográfica na mão, fotografando e conversando com o Carlinhos, e ríamos sem parar, com pena de nosso amigo. De minha parte não havia, mais, então, constrangimento. Havia leveza, compaixão e riso.

Me alonguei, contudo. Como disse, a viagem foi divertida, foi leve. Deixou, pelo menos para mim, lembranças boas e inesquecíveis. O que pegou foi o cheiro, o que acabou sendo algo quase trágico, e no fim das contas muito divertido. Viajamos à noite, era inverno, fazia frio. E não dava para fechar as janelas do carro. Era aquele perrengue constante, abre, sente frio, fecha, não aguenta o cheiro. E ele, cujo olfato já não pegava mais nada, não entendendo aquele abrir e fechar de janelas, sem parar, entre São Paulo e Ubatuba. Escrevendo assim parece exagero, parece um pouco de maldade. Mas não era só eu. Ninguém no carro estava aguentando, as crianças estavam quase morrendo. Acabamos sobrevivendo, mas chegamos em Ubatuba praticamente sem fôlego. E então, uma vez transcorrendo o fim de semana, ele dizia que não precisaria tomar banho. “Como não, pai? São dois dias aqui...”. “Non, veja bem. Eu tomou banho no sexta, antes de sair do Embu-Guaçu. Agora é sábado, eu non transpirou, non sujou. Amanhã nós vai embora, eu toma banho em Son Paulo.”. “Mas pai, toma aqui, vai ser mais confortável, você vai se sentir bem, vai refrescar, vai dormir melhor.” “Non, non, é melhor tomar em Son Paulo”. Então a família, fazendo piadas, rindo da situação, se desesperou.

Como encarar a viagem de volta, naquelas condições? Era uma possibilidade que ninguém conseguia imaginar. Filho, nora e netos, só o que discutíamos era como arrastar o “vovô Jean” para o chuveiro. E também, constrangidos, não tínhamos coragem de falar a verdade, de dizer que ele estava cheirando mal, que banho não era uma opção, mas uma necessidade. Então tentávamos ser sutis, mas a coisa não progredia. Então partimos para um plano desesperado, e arriscado. Decidimos convencer o vovô Jean de que ele devia dar um mergulho. O problema é que ele tinha medo. Ele se lembrava da Praia Vermelha de quando morou em Ubatuba, e se lembrava de quase ter morrido ali. Na verdade ela não é tão perigosa assim, mas, sendo uma praia de tombo, com algumas correntes de retorno traiçoeiras, ela pode realmente assustar, e até matar, um desavisado. Os surfistas, especialmente no verão, não param de socorrer banhistas desesperados (eu mesmo já fiz isso muitas vezes, inclusive numa ocasião inesquecível em que um casal se afogava, e quando eu cheguei com a prancha para tirá-los do mar, ajudando a mulher primeiro, o marido voou para mim, implorando para ir antes. Dei uma dura e o mandei esperar, que ia salvar a mulher dele e voltaria para tirá-lo de lá, mas o valente cavalheiro não queria aceitar isso de jeito nenhum. Os dois sobreviveram, mas não sei se o casamento deles teve a mesma sorte).

O fato é que, sem alternativa melhor, fizemos de tudo para convencer meu pai a dar um mergulho, e ele acabou topando. Eu fiquei o tempo todo com ele, amparando e ajudando, e acho que, no fim das contas, foi bom para ele. Jean não via o mar havia muitos anos, e aquele seria o último mergulho da vida dele. Agora, tirando isso, que a coisa foi complicada, isso foi. A medicação para a fibrose pulmonar devorara toda a musculatura dele, e mesmo com o mar estando longe de seus dias mais pesados, a força das ondas, na Vermelha, quebrando rente à areia, é considerável. Uma onda acabou por derrubá-lo, e ele não tinha força, não apenas para se levantar, como até mesmo para me ajudar a fazê-lo. Com um metro e oitenta e seis de altura, e ossatura pesada, mesmo magro ele era difícil de erguer. E as ondas vinham em série, levantando fortes e quebrando no raso, na areia. Fiquei, ficamos todos, realmente assustados, olhos arregalados. E se ele, com a ossatura enfraquecida pela cortizona, sofresse uma fratura ali? Ou se, no afobamento, engolisse água? Mas no fim das contas tudo acabou dando certo, ele saiu do mar, cambaleando feito um bêbado, mas saiu, e rindo, indo dali direto para o chuveiro. No fim da história, ele estava muito feliz com o mergulho e todos nós pudemos respirar melhor no regresso a São Paulo.

Só agora me dou conta, aquela foi a única viagem que fiz na vida com meu pai. Foi também a última viagem dele, a última vez que esteve em Ubatuba, a última vez que viu, sentiu e cheirou o mar, aquele imenso e mágico universo líquido que ele tanto amou.

 

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Postado em 25.02.2010 | 11:02 | André Caramuru Aubert
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Esquina morta, aquela
no escuro da noite que avança
é que por ali ela não passa mais
e ela passava sempre, esbelta, esguia, elegante. Bonita
ela, Jussara, que amei, amei muito, intensamente, mas amei assim de longe,
de ver passar,
de olhar, só de olhar
bonita,
ela então um dia se amaziou com um sujeito
escrivão de polícia
que a embarrigou três vezes
e depois a largou
e ela vive agora lá pros lados do Bresser,
gorda, inchada, bexiguenta
com as três crianças que o escrivão fez nela
ela costurando, cerzindo, lavando
está escuro, a noite vai alta agora e para mim aquela esquina morreu.


Antúrio Martins, Jussara, ai Jussara




Ainda brincando de artista, 1980

Ainda brincando de artista, 1980

A última grande investida de meu pai nas artes plásticas coincidiu com o período em que ele ganhou mais dinheiro com o esmalte, ao longo da década de 80. Ele fez, naquela década, uma bela exposição individual que, graças aos esforços de algumas pessoas, principalmente minha mãe, teve uma razoável repercussão na mídia. Nessa época nos víamos com uma razoável frequência. Eram anos de muita inflação, em que todos os preços estavam tão indexados que era comum mudarem, no supermercado, entre o começo e o fim de uma compra. De qualquer forma, a economia estava bombando, e isso serviu para nos aproximar um pouco, pois o Lotus 123, a primeira planilha de cálculo para PCs realmente profissional, virou a nova mania de Jean, ajudando-o a tabular as variações dos preços de todos os insumos e a recalcular, automaticamente, os preços de venda de suas peças. Como eu já usava computadores, acabaria sendo uma preciosa fonte de informações e programas para ele, o que levava a um natural interesse por um maior convívio. Além disso, eu já era adulto e portanto interlocutor para ele, suas conversas intelectuais, agradáveis, e ouvinte paciente para as reclamações dele sobre os dramas da vida conjugal, chatas. Eu também desenhava cartuns e estava tentando começar a escrever alguma literatura, e buscava nele um leitor crítico e incentivador, coisas que na verdade ele nunca fez, acrescentando alguma coisa a mais ao meu já bastante carregado cesto de mágoas.

Dos cartuns desisti logo, embora acho que levasse algum jeito para a coisa, mas era uma área por demais próxima da região dominada por ele. Me concentrei na escrita e, investindo em contos, escrevi uns duzentos naquele período. Acho que, no bolo, pode ser que haja coisas razoáveis que, reescritas, se salvariam. A maior parte não resistiu ao tempo. O maior problema é que eu não tinha voz própria, era muito influenciado por linguística e semiótica, que estudava na época, e queria escrever como os autores pelos quais eu era apaixonado: ora como Borges (concisão e absurdo), ora como Saki (finais surpreendentes), ora como Schnitzler (drama humano), ora como os irmãos Haroldo e Augusto de Campos (matemáticos), tudo com uma pitada de Nabokov (matemático e cínico), João Antonio (os anônimos da noite paulistana), Nava (memorialismo e frases longas) e Carpentier (História, barroquismo e calor caribenho). O meu estilo era muito formalista, querendo exibir erudição, mas que mostrava pretensão e imaturidade. Meu pai talvez pudesse ter me dito isso, ele tinha cultura para tanto. Se tivesse feito ele teria construído, ali, um laço, um laço que não houve na infância e nem na adolescência. Mas ele não o fez. Reproduzo aqui trechos de um dos contos que eu ainda gosto, de 1986, em que faço o necrológio para um autor fictício que caiu no esquecimento, Antúrio Martins, e que, ao falar dele, acaba por lembrar outros (reais) também esquecidos, ainda que tenham feito sucesso quando viveram:

“Antúrio Martins morreu. A notícia começou a circular ontem à tarde sem que ninguém desse a ela maior atenção. Antúrio Martins morreu doente e esquecido num pequeno quarto da Casa de Repouso São Bartolomeu. A última coisa que ele sentiu na vida deve ter sido aquele horrível cheiro de comida que parece exalar ininterruptamente das paredes desse miseráveis depósitos de velhos. Antúrio Martins não passava de um traste, sucata inútil.

Quem conheceu Antúrio ou leu seus livros não pode deixar de ficar revoltado ao saber das condições em que o Escritor morreu. Antúrio Martins foi um dos mais sensíveis e líricos romancistas brasileiros, dono de um domínio único dos recursos sonoros da Língua, capaz de construir as mais cínicas e sutis passagens, as tramas mais admiravelmente bem tecidas, impiedoso com seus personagens e com a alma do leitor. Pois não se atravessa impunemente um livro de Antúrio Martins; qualquer um deles é capaz de provocar os mais cruéis ferimentos à alma.

(...) Foi buscar inspiração nas páginas de Graça Aranha, de Lucilo Varejão, de Papi Junior, de Veiga Miranda. E, em A Filha do Fazendeiro e mesmo nas páginas seguras de Sob o Ypê de Sonhos, aqueles autores se faziam muito sentir. A Flauta de Jericó trouxe algo de Plínio Salgado de A Vida de Jesus e das idéias de Jackson de Figueiredo e do padre Leonel Franca. Mas nesses livros já havia, sem sombra de dúvida, a pena vigorosa e pessoal de um grande autor.

Em Foice Valente já se via o dissipar das influências em função de um estilo marcante que tomava corpo. Como na maioria das obras de sua época (década de 40), fez concessões ao se ver na obrigação de retratar as misérias e as lutas do Homem do ‘hinterland’ brasileiro. Figura urbana que era, Martins perdeu muito ao pintar, sob as lentes do realismo, a vida dos cortadores de cana, realidade da qual nada conhecia. Tirante esse aspecto, Foice é obra de primeira grandeza sob quaisquer critérios. Estrada sem Vida, o romance seguinte, abolia de vez as experiências folclorizantes e partia com toda a força para o aperfeiçoamento (repleto de radicalismos) formal.

(...) Escadarias de Granito, romance denso, viril, com rasgos de um gênio que permitiriam situá-lo entre as grandes obras literárias do século. Sem temor eu o teria (e tenho) na minha estante ao lado de Joyce, Nabokov, Borges, Gadda, Rosa. Neste livro, como nos anteriores, a crítica não prestou atenção.

Querendo ser cartunista, 1980

Querendo ser cartunista, 1980

Antúrio continuava, porém, em seu abnegado ofício de escrever. Lapidava (e dilapidava) as palavras, explodindo-as com golpes estilhaçantes onde às vezes parecia desaparecer a ordem dos espelhos. (...). 1961 veria surgir os dois últimos livros de Antúrio Martins: A Nuvem não Voltará, comovente busca de um mundo perdido (ou nunca alcançado), que o autorizava a sentir-se herdeiro de Thomas Mann e Proust, e Relva Salinizada, romance extenso e exuberante onde, como n’Os Sertões, de Euclides, mesmo na profusão de páginas, cada palavra, cada vírgula e ponto estavam no lugar exato. (...) Mais uma vez, no entanto, e pela última vez, encontraram para recebê-las apenas o silêncio e a indiferença.

Antúrio, então, desistiu. Não tinha mais forças para o gelo que o cercava por todos os lados. Permaneceu quieto em seu pacífico emprego de despachante junto ao Detran, esperando a aposentadoria. Nunca mais publicou uma linha sequer (...). Cheguei a vê-lo algumas vezes, na madrugada, vagando pelos bares da Avenida São João (...). Naquelas noitadas Antúrio bebia e convivia com seus únicos amigos, os anônimos caftins, taxistas e demais perdidos da noite. Parta estes, quando o álcool havia já rompido as amarras da timidez, o Escritor recitava versos seus, compostos na hora (...), como este, Jussara, ai Jussara, que tenho guardado no guardanapo original em que foi escrito:


Esquina morta, aquela
no escuro da noite que avança
é que por ali ela não passa mais
e ela passava sempre, esbelta, esguia, elegante. Bonita
ela, Jussara, que amei, amei muito, intensamente, mas amei assim de longe,
de ver passar,
de olhar, só de olhar
bonita,
ela então um dia se amaziou com um sujeito
escrivão de polícia
que a embarrigou três vezes
e depois a largou
e ela vive agora lá pros lados do Bresser,
gorda, inchada, bexiguenta
com as três crianças que o escrivão fez nela
costurando, cerzindo, lavando
está escuro, a noite vai alta agora e para mim aquela esquina morreu.


Como aquela esquina, a esquina de Jussara, Antúrio Martins morreu. Agora, quem sabe, ele seja resgatado dos sebos, lido, reeditado (...). E todos dirão: ‘Sabe o Antúrio, conhece o Antúrio, já leu o Antúrio, o Antúrio, o escritor maldito? Quem sabe. (...) Para você, Antúrio, meu caro amigo, resta o consolo de que o sofrimento acabou. É que, Antúrio Martins, você morreu.”


Antúrio era um pouco meu pai, mas era também alguém que, sob alguns aspectos, eu tinha medo de um dia vir a ser. Alguém que, a despeito de ter talento e de não ser talvez má pessoa,  seria um fracassado tanto na obtenção de reconhecimento desse talento como na construção de uma rede duradoura e fiel de pessoas que o amassem e amparassem, fosse de familiares ou de amigos. No entanto, mais que o Antúrio, o conto que melhor descreve a forma como via meu pai, e minha relação com ele, chamava-se Shirley, também de 1986, e relatava a situação de um sujeito que, devastado pela rejeição e fuga da mulher amada, abandona a filha de cerca de cinco anos num parquinho, consciente de que nunca mais a verá e desejando ter a certeza de que alguém a acolherá. O texto terminava assim:

“... Começa a escurecer. Olho para Mariana brincando, alegre, sem ligar para a hora, tento fixá-la bem em minha retina, é a última vez que vou vê-la. Meus olhos estão cheios de lágrimas, agora me levanto sorrateiro e desapareço rápido das ruas que cercam o parque. Ando depressa em direção ao metrô (...) As estações passam, e sinto imensa tristeza ao lembrar que, a esta hora, Mariana já deve ter sentido a minha falta e está desesperada, sem entender nada, chorando, totalmente só no mundo, abandonada. (...) Tadinha, ela vai sofrer muito, mas alguém há de cuidar dela, alguém há. Eu, no entanto, não devo pensar mais nela e nem em outras coisas que digam respeito a um passado que enterro hoje.”

De qualquer forma, meu relacionamento com meu pai continuou distante e frio. Poucos encontros, pouca conversa, nenhuma intimidade. Tão, mas tão! diferente do que eu tenho com Pedro, meu pai nada soube, nunca quis saber, das coisas que passavam pela minha cabeça na passagem da adolescência para a vida adulta: as questões, os dilemas, os medos, as conquistas, os prazeres, os porres, as ilusões e as desilusões.

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Postado em 23.02.2010 | 16:02 | André Caramuru Aubert
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Da parede de meu pai, outro oleo de Roland Weber

Da parede de meu pai, outro oleo de Roland Weber

Com meu pai morando no sítio, meu contato com ele ficaria ainda mais espaçado no tempo. No fim das contas, ele viveu lá por quase quarenta anos. Se durante este tempo eu estive lá por dez vezes, foi muito. A ideia de passar um fim de semana em Embu-Guaçu era aterrorizante, especialmente para alguém que estava entrando na adolescência. Aquilo era o tédio absoluto, intercalado pelos momentos de tensão com as explosões de Marie, que em geral aconteciam na hora do almoço. Ela começava a cozinhar de manhã, e ia bebendo “uns drinques” para relaxar e deixar a vida mais leve. Não sei porque, mas no caso dela o efeito do álcool era terrível. Ela começava a entrar numa outra dimensão, o olhar mudava, mergulhava em um estado de euforia, até que todos se sentavam à mesa para comer. Então, qualquer coisa podia servir como fagulha: algum comentário sobre a comida que ela entendesse como crítica; alguma menção a um assunto tabu, e assuntos tabu eram muitos, incluindo naturalmente qualquer coisa referente à família de minha mãe ; e assim por diante. Em seguida, ao se sentir agredida, ela levantava subitamente, se dirigia a algum cômodo por perto, batia a porta com toda a força possível e começava a chorar e a berrar, gritando para quem quisesse ouvir todo tipo de palavrão, e se declarando injustiçada, perseguida, mal amada (por um marido broxa e cornudo), abandonada no meio do mato. O roteiro dos impropérios variava segundo o tópico que havia causado o escândalo. Se originado em meu pai, por exemplo, eles incluiriam, naturalmente, menções sobre a duvidosa masculinidade dele. Tudo isso, claro, com um vocabulário um tanto quanto menos polido.

Por pelo menos meia dúzia de vezes, eu topei ir para lá em fins de semana, mais do que tudo, como um pretexto para dirigir na estrada, antes de ter habilitação de motorista. Uma vez de carro, no meu Jeep 66, que mais parava do que andava, outra vez de moto. Naturalmente, no domingo, naquelas duas vezes, procurei sair o quanto antes, alegando evitar dirigir à noite, algo que na verdade sempre gostei de fazer, especialmente naqueles tempos de polícia mais flexível e estradas pré-radar. A casa de Embu-Guaçu, de qualquer forma, estava então bem mais civilizada do que nos primeiros tempos. Estava até, na verdade, aconchegante. Já não havia tantas aranhas e eles haviam reformado (expandido) consideravelmente a casa. Na verdade, a parte original, um retângulo, era agora a base de um “U”, que se projetava para a frente, em direção ao lago e ao morro coberto de mata na frente. Numa das extremidades, à direita de quem olha para o lago, sala, sala de jantar, escritório e área de serviço. Na outra, o atelier, chamado de “oficina”, e a garagem de carros colada a ele. Tanto Jean quanto Marie tinham bom gosto, e a casa, apesar de meio precária, meio pós-hippie, e talvez até, de certa forma, por esses motivos, ficou simpática. Nas paredes, quadros de meu pai, do amigo suíço Weber, de meu avô Jacques, e algumas peças trazidas de diversas partes do Brasil, como bonecos de barro do Mestre Vitalino, de Caruaru, objetos antigos do interior de São Paulo, de Minas, do Mato Grosso, e outras coisas trazidas da Europa, como uma gravura do século XIX mostrando o bombardeio (e a conquista) de Argel pela Marinha Francesa em 1830, e outra espanhola, no estilo cordel, do início do século XX, enaltecendo o herói mítico El Cid campeador, ambas hoje na parede de minha casa. Estante de livros, vitrola e muitos discos, a maior parte clássicos, mas também alguma coisa de jazz, de gospel (o tradicional, como Mahalia Jackson), e MPB, como Caetano e Chico, além daquela coleção de música popular do Brasil do Marcus Pereira.

Marie podia ser doce e agradável, e às vezes o era. Nestas ocasiões em que passei o fim de semana em Embu-Guaçu, era comum que jogássemos buraco, à noite, enquanto meu pai lia, ou mesmo depois que ele tivesse ido dormir. Ela então bebia com moderação, bebidas como Campari ou San Raphael, e me deixava beber também. E ela era boa em música, entendia, tocava piano muito bem, e eu, como adolescente, sonhava, entre outras coisas, em ter minha banda e fazer sucesso com música. Não é preciso dizer que eu não tinha o menor talento musical, mas isso ainda não estava 100% claro naquela época. De qualquer forma, ela me incentivava e, quando eu me propus a aprender a tocar acordeon, ela me emprestou seu “oitenta baixos” (que ela aliás tocava bastante bem), o que foi pura perda de tempo, mas que me deixou feliz de qualquer maneira.

É provável que os primeiros anos em Embu-Guaçu tenham sido os mais felizes da vida de meu pai. A loucura possessiva de Marie ainda era suportável, ele morava onde gostava  (no meio do mato), ganhava um razoavelmente bem com o esmalte, só precisava dar atenção à filha nos fins de semana e podia dedicar algum tempo e dinheiro a pintura e a escultura. Mas, com o tempo, as coisas foram se degringolando. A insanidade de Marie seguiu aumentando, as mudanças na economia, com os sucessivos planos econômicos, culminando no confisco e na abertura da economia da era Collor (que, com a importação de produtos made in China, matou de cara os lados “brinde” e “luminária” do negócio), fizeram o dinheiro do esmalte diminuir progressivamente, e a carreira de artista plástico dele, apesar de alguns momentos de reconhecimento de crítica e até relativo sucesso comercial, não decolou. Em busca de uma alternativa para sobrevivência, eles decidiram montar um canil-hotel, desses que hospeda cachorros quando os donos vão viajar. De novo, deu para dar uma levantada, pois o Brasil, de Itamar em diante, recebia cada vez mais investimentos estrangeiros, com os investimentos vinham os executivos, e executivos tinham famílias e cachorros. Como a rede de contatos deles era basicamente centralizada nas colônias estrangeiras, de franceses, alemães, ingleses e americanos, a freguesia não parou de crescer.

Só que, nesse ponto, Marie já começava a sair do controle. Aproveitando a estrutura do canil, ela começou a recolher, na rua, cachorros abandonados. Como o que não falta, na periferia das grandes cidades brasileiras, é cachorro abandonado, eles logo perderiam a conta de quantos animais viviam ali. E para piorar, como fama de otário é coisa que se propaga muito rápido, logo o povo todo de Embu-Guaçu sabia que dois gringos lunáticos estavam recolhendo cachorro abandonado, então as pessoas passaram a soltar animais indesejados na porta do sítio. Em algum momento, o número de cachorros abrigados ali superaria, com facilidade, a casa dos cem. Tinha cachorro por todo lado, em todos os quartos, em cima de todos os sofás, debaixo de todas as camas. Nesse ponto a loucura do casal entraria numa espiral que saía de qualquer possibilidade de controle. Eles estavam cada vez mais sozinhos, pois ninguém aguentava ir para lá, nenhum dos poucos amigos remanescentes e nem mesmo a B., já agora casada. O dinheiro ganho com o canil e com a recém adquirida aposentadoria suíça de Jean não vencia as despesas com os cachorros “adotados” e, nem na vida paralela em conjunto que eles levavam, as crescentes compras de livros importados na Livraria Cultura.

Para complicar de vez as coisas, de repente a saúde de meu pai, sempre tão forte, começou a dar sustos. Primeiro, ele teve uma meningite que quase o matou. E algum tempo depois, isso há cerca de dez anos, uma tossezinha chata e uma certa sensação de falta de fôlego acabam por trazer, como uma pedrada, o fatal diagnóstico da fibrose pulmonar. Não havia cura, mas uma sobrevida era possível mediante a ingestão constante de uma cara e pesada medicação à base de cortisona que, para preservar os pulmões, arrasava, como numa quimioterapia para quem tem câncer, todo o resto do corpo. No negócio do canil, a parte “força física” era essencial, e Jean passaria a dispor cada vez menos dela.

Da parede da casa de meu pai, El Cid Campeador

Da parede da casa de meu pai, El Cid Campeador

Nesse momento, ele já não pintava, embora com frequência falasse em voltar a fazê-lo. Embora não fosse religioso, nem burro, e soubesse tudo, objetivamente, sobre o que era a fibrose pulmonar, Jean não admitia que estava, pouco a pouco, morrendo. Com a doença avançando, as despesas do casal aumentariam progressivamente, enquanto a capacidade deles de gerar renda diminuiria na mesma proporção. E como no baile final do Titanic, com a orquestra tocando freneticamente e as pessoas bebendo, dançando e se divertindo enquanto o navio afundava nas águas geladas do Mar do Norte, Marie seguia recolhendo cachorros nas ruas, e Jean levando dúzias de livros importados para casa toda semana. Livros que, em sua maior parte, ele lá no fundo sabia, não teria qualquer chance de ler antes que a morte o pegasse.

Como no poema de Antúrio Martins, Jean foi uma promessa que nunca se cumpriu. Foi alguém que nada havendo que não pudesse, morreu no entanto sem nada ter sido. Se ele se boicotou ou se não teve os recursos e a força para enfrentar os desafios e obstáculos que se interpunham entre o anonimato e uma bem sucedida carreira de artista plástico, não sei dizer. Talento ele tinha. Acredito que o reconhecimento como artista teria representado a maior proximidade possível com a ideia de felicidade que ele poderia ter almejado, já que, estava escrito desde a infância, fracassaria como marido, filho, irmão e pai. E agora, que tudo caminhava para o final, “era como se se abrisse a janela, enquanto se fechava a cortina.”

 

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Postado em 18.02.2010 | 12:02 | André Caramuru Aubert
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Não havendo nada que não pudesse ter sido,
No entanto nada fora, nada havia sido
Não que nada pudesse, nada disso, mas era tarde agora
Tão tarde, agora
[nuvens avermelhadas, róseas, desfilam vagarosas, quase pesadas, no horizonte]
Agora era como se se abrisse a janela,
Enquanto se fechava a cortina.


Antúrio Martins, Relato singelo sobre os últimos dias de alguém mais ou menos próximo



Meu pai sempre foi, literalmente, um bicho do mato. Com dificuldade para se relacionar com as pessoas, a vida em sociedade sempre foi penosa para ele. Os lugares em que ele mais foi feliz, na vida, foram provavelmente os Alpes, Mato Grosso e a mata entre Paraty e Ubatuba. Ele e Marie, agora com a B., viviam na rua Joinville, e o negócio com o esmalte crescia. Então, não sei bem o que aconteceu, mas uma ida ao médico acabou por providenciar o pretexto que ele sempre buscou para poder sair da cidade. A história que ouvi é que o médico teria dito que a atividade com o esmalte era muito tóxica, que eles precisavam compensar esse fator negativo vivendo num lugar mais arejado e com ar puro. Eles tinham um amigo da Praça da República, um joalheiro pós-hippie chamado Bobby Stepanenko, um jeito, mais que um jeito um fenótipo, pelo que me lembro, meio que de Lenin, simpático e bom papo, que encontrara terras baratas para comprar numa olaria abandonada em Embu-Guaçu, perto de São Paulo.

Bobby não podia comprar tudo aquilo sozinho e convenceu Jean a embarcar na história. A terra ali era barata, porque era longe, o lugar era inóspito e, ao contrário de outras cidades em volta de São Paulo, como Santana do Paranaíba, Cotia ou Ibiuna, não estava e jamais estaria na moda e nem no radar dos paulistanos. Embu-Guaçu, a rigor, só aparece nos jornais nas páginas policiais, como no caso trágico do casal de adolescentes torturado e morto pelo delinquente Champinha em 2003. O sítio era, na versão otimista, um vale. Na pessimista, um buraco: a estrada ficava no alto, e dali descia-se uma encosta até a antiga casa dos oleiros, que eles reformaram e ampliaram para ocupar. Na frente da casa, um pequeno lago, e depois do lago outro morro, só que do lado de lá o morro era coberto de mata, uma bela parede de mata atlântica, com algumas árvores até grandinhas, e a presença eventual de macacos bugios, capivaras e lontras. O lugar não era feio, mas era um pouco deprimente, especialmente em dias de neblina ou chuvosos, pois ficava-se embaixo, morro na frente e morro atrás. Para sítio de fim de semana, até que o lugar seria suportável, mesmo porque se o tempo está fechado você sempre pode arrumar a mala e ir embora, mas para morar era mais complicado. Seria, sem exagero, de colocar a sanidade mental de qualquer um à prova. E se você estivesse levando para lá alguém que já tinha problemas pré-existentes neste departamento, então a coisa toda tinha os ingredientes, e o manual, para a construção de uma poderosa bomba relógio.

oleo de Jean Aubert, de 1980 e poucos

oleo de Jean Aubert, de 1980 e poucos

Meu pai comprou dez mil metros, Bobby outros dez mil. Cheguei a ir até lá uma vez, antes da reforma da casa, na verdade uma casa de oleiro realmente rústica, com três cômodos alinhados na sequência, tijolo e telhado aparentes e banheiro do lado de fora, num pic nic, e o que mais me chamou a atenção foi a absurda quantidade de aranhas armadeiras que havia por ali. Essa aranha, além de ser uma das mais venenosas do mundo, é muito agressiva e dá muito medo, pois, quando arma o bote, levanta a bunda e as duas patas da frente, e fica rebolando alguns segundos antes de voar, por até dois metros, em direção ao alvo escolhido. E, se ela acerta o alvo, crava os ferrões para injetar o veneno, não desgruda e a dor, pelo que contam, é insuportável. Na primeira vez que eu fui, uma dessas bonitinhas armou um bote contra meu pai, parecia filme de faroeste, ele com um chinelo na mão, ela com as patas da frente levantadas, olhos nos olhos, frieza e controle, dois metros de distância entre os dois. Alguns segundos de expectativa, que pareciam horas, então de repente ouve-se um estalo e a aranha pula. Meu pai, que já antecipara o movimento do inimigo, é rápido e tira o corpo. Ela passa voando e aterrissa atrás de onde ele estaria, meio desajeitada, pois perdeu o alvo. Para ela, um erro fatal. Pois ele não perdoa, e desce o chinelo certeiro sobre uma armadeira que ainda tentava se re-situar no mundo. Eu assisti a este duelo, mas sei que muitos mais ocorreram por lá. Seriam necessários meses de ocupação e limpeza do terreno para que as armadeiras, que nunca desapareceram completamente dali, chegassem a um patamar populacional suportável.

Não precisava ser um gênio para prever, a sanidade mental de Marie viria a ser uma vítima daquele lugar. Mas, num primeiro momento, a primeira pessoa a sofrer com a mudança foi a B Ela era bolsista no Liceu Pasteur, a escola francesa, e seria impossível, vivendo naquele fim de mundo, ir e vir da escola todo dia, então a solução foi simples: deixar a filha, então com seis anos de idade, vivendo em São Paulo durante a semana, ora com famílias de colegas de escola, ora com uma tia torta de Jean (pelo lado da família de Donana). Assim como aconteceu comigo antes, a B. também foi abandonada. Nossos casos têm diferenças, mas não consigo dizer com quem a coisa toda foi pior. Na verdade, acho que com ela. Pois, comigo, havia a família da minha mãe, que foi completamente presente, e não houve muita dubiedade: o pai foi-se embora e pronto. Com ela, no entanto, pai e mãe agiram juntos, largando-a em São Paulo, em lares estranhos a ela, então o sentimento de rejeição, a insegurança, foram seguramente maiores. E ela nem podia contar comigo, que não morava perto e nem a tinha em meu radar de prioridades.

Para piorar as coisas, a pão durice de Jean ainda criava constrangimentos extras para ela. Ele a deixava em casas de colegas e não se preocupava nem um pouquinho em ajudar com as despesas adicionais que aquelas famílias estavam tendo, afinal, na visão pragmática dele, eram famílias com mais dinheiro que ele, então tudo bem. Mas ela, vivendo durante a semana com essas famílias, deve ter entreouvido, ou ouvido mesmo, não poucos comentários, sobre a “folga” dos pais dela. Pior, sendo obrigada a passar os fins de semana no buraco de Embu-Guaçu, B. viveria a infância e a adolescência na contramão das outras crianças, que passam a semana com os pais e, aos sábados, domingos e feriados, têm a chance de ir a festas ou fazer programas com os amigos. Com ela era o oposto. Durante a semana com escola e amigos e, nos fins de semana, o isolamento. E, desde cedo apavorada com o ambiente maluco e propenso aos barulhentos escândalos em que viviam seus pais, ela nem se atrevia a convidar alguma colega a ir com ela para casa, pois passaria os dois dias de descanso oscilando entre o pânico (antes de algum escândalo estourar) e a vergonha (depois).

No fim das contas, essa atitude pragmático-folgada de meu pai com relação à filha foi exatamente a que ele teve com relação a mim, deduzindo, comodamente, que minha mãe tinha mais recursos (claro, afinal ela trabalhava de dez a doze horas por dia) e que então ele podia se sentir, com mais tranquilidade, dispensado de ajudar. A pão durice atávica dele era mesmo impressionante. Nas poucas vezes em que almoçamos juntos em restaurantes, e em que eu já era adulto, mesmo quando ainda universitário, ele nunca fez qualquer menção de pagar ou dividir a conta.

Pedro no colo do vovo Jean, numa das duas unicas vezes e m que os netos estiveram em Embu-Guacu

Pedro no colo do vovo Jean, numa das duas unicas vezes e m que os netos estiveram em Embu-Guacu

E é mais complicado quando a mesquinharia vem disfarçada de racionalidade. Teve um dia em que ele passou em casa para me visitar, naquele período em que eu já estava na faculdade e nós tentávamos construir uma interlocução civilizada. Eu lidava com aquele sentimento de rejeição que vinha lá de trás, era aquela coisa complicada, difícil. Pois então teve esse dia, em que ele veio me ver. E de repente, no meio da conversa, sem mais nem menos, ele solta: “Sabe, André, eu fez meu testamento, e non pôs você nele. Você tem os recursos do família de seu mãe, o B. non tem nada, entón eu resolvi deixar tudo para o B.^^~-_-” Eu me senti tão humilhado, tão ultrajado, tão mal, que não consegui reagir. Apenas disse, ok, faça como você achar melhor. Eu não estava realmente preocupado com bens materiais que viessem dele. Eu sobrevivera toda a minha vida sem isso, em nenhuma hipótese eu estava contando em receber, no futuro, uma parcela daquele buraco em Embu-Guaçu, comprado aliás com o dinheiro de venda de alguns terrenos em Ubatuba, da época em que ele foi casado com minha mãe. O problema, o único problema, era de novo o sentimento de rejeição. Caramba, esse cara nunca se preocupou em me dar nada, comida, escola, remédios, roupa, e ainda chega aqui agora,  a essa altura do campeonato, com a maior calma, dizendo implicitamente que não deu nada mesmo em vida, que isso foi a coisa certa a fazer e, explicitamente, que mesmo depois de morto, fará a mesma coisa?

O outro efeito colateral dessa atitude foi fazer com que eu e B. jamais fôssemos realmente amigos. Para ela, Jean dizia (implícita ou explicitamente) que eu era o filho inteligente, capaz, bacana, e que ela, coitadinha, era esforçada. Para mim, era isso que se viu, rejeição seguida de mais rejeição. Nesse contexto, só por milagre minha irmã e eu teríamos a chance de construir algo mais entre nós, na vida, do que uma relação formal e espinhosa. E milagres não acontecem, não aconteceram.

Jean et Marie se veem, de repente, um casal novamente sem filhos, pelo menos durante a semana. Sem filhos, sem amigos, sem gente por perto. No meio do mato. Jean estava pronto para ser feliz ali, ou pelo menos tão feliz quanto sua alma atormentada conseguiria ser, em qualquer lugar do planeta. Marie, coitada, era um animal urbano. Se já era meio louca, mas ainda capaz de, bem ou mal, viver em sociedade, ali ela perderia os parafusos mais rapidamente, tudo aquilo lembrando um pouco, para mim, o ambiente e as personagens do filme O Iluminado, com Jack Nicholson no papel do escritor Jack Torrence; que aqui obviamente seria, embora mulher e não escritora, Marie.

 

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Postado em 11.02.2010 | 12:02 | André Caramuru Aubert
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Meu pai poderia ter sido um artista plástico bem sucedido. Tinha talento para isso, e a formação que teve na Suíça, antes de vir para o Brasil, garantiu que ele dominasse técnicas e uma cultura em artes plásticas bastante consistente. E ele produziu algumas coisas realmente boas. Seu amigo de infância e colega Roland Weber se tornaria um nome muito conhecido nas artes plásticas na Suíça e na França. No entanto, Jean, embora tenha participado de diversas coletivas, incluindo uma mostra, com concretistas, no MAM, e outra de esmalte no MASP, feito algumas individuais, nunca se realizou enquanto artista. Em parte, ele se boicotou, era muito bicho do mato, não se relacionou com o meio certo, com os críticos certos. Em parte, porém, a maior parte da sua obra sofria da mesma falta de emoção que se podia perceber nas crônicas de memórias que ele escreveu. Não por acaso, a maior parte de sua produção era de estilo concretista, com obras muito, às vezes excessivamente, cerebrais. Sua pintura acabava se confundindo com a de Lothar Charoux, de Arcângelo Ianelli, de Hércules Barsotti, de Israel Pedrosa; a escultura, com a de Franz Weissmann, Lygia Clark ou Amílcar de Castro. Como se pode produzir arte de verdade com muita técnica, muita cultura, mas com o lado emocional travado? É difícil. Seja pintura, escultura, literatura, música, não importa: sempre vai faltar alguma coisa.

Escultura de Jean Aubert, decada de 1980

Escultura de Jean Aubert, decada de 1980

Jean era inteligente, agudo, podia discutir com propriedade o Ulysses, de Joyce, a vida de Carlos Magno, os contos de Saki. Mas gastava uma enorme energia lidando com sua insegurança, tentando se achar melhor que os outros, tramando picuinhas, falando mal dos vizinhos, fazendo futrica, colocando uma pessoa contra outra, desprezando os diferentes, especialmente quando os diferentes eram mais pobres. E, mais do que tudo, Jean era socialmente obtuso, tinha uma péssima capacidade de leitura das pessoas e do ambiente. Muitas vezes ele se via como o rei da cocada preta, pensava que estava abafando, enquanto todos em volta riam dele, se não por fora, com certeza por dentro. Eu assisti a algumas situações assim, era algo embaraçoso e triste, especialmente quando eu era mais novo. Dava para ver a ironia nas palavras, nos olhares, nas palavras dos outros, que davam corda, alimentavam o ego do bobalhão, e o bobalhão ia se empolgando cada vez mais, vestindo o papel de bobo da corte enquanto se sentia um Lancelot. Numa conversa, além disso, ele só sabia falar dele e se, eventualmente, fosse realmente obrigado a ouvir o que o interlocutor dizia, ele era o peso e a medida de tudo, julgando o outro por seus próprios parâmetros.

Essa incapacidade de olhar o outro, de ler o ambiente, acabava se combinando com uma outra característica marcante em meu pai: o profundo egoísmo. Ele sempre achava que o mundo devia muito a ele, que ele havia sofrido muito, dado muito de si para todos, e recebido pouco, ou nada, em troca. Quando no hospital ele pediu perdão para mim, reconhecendo que havia falhado, que não havia sido um bom pai, ele não foi, tenho certeza, sincero. Ele não acreditava naquilo que dizia, ele estava apenas atrás de um paraquedas, ele não queria voltar, de jeito nenhum, para as garras da louca Marie, para o hospício canino de Embu-Guaçu. A madrasta, Donana, dizia que o universo, para ele, era o próprio umbigo. Quando meu avô Jacques, antes, e ela, alguns anos mais tarde, estavam para morrer, em Olinda, a sobrecarga emocional e financeira estava toda em cima de Marc, que estava tendo muita dificuldade para dar conta de tudo, e pediu ajuda ao irmão, que negou. Marc implorou, Jean continuou negando, dizia que não tinha dinheiro. Mas continuavam, ele e Marie, a comprar montes de livros e a recolher cachorros nas ruas. E foi assim por meses, Marc pedindo, recebendo negativas, até que ele desistiu e acabou se conformando em segurar a bronca sozinho. Quando eu questionei meu pai sobre isso, pouco tempo antes de sua morte, ele alegou que a Marie não o deixou ajudar. A mesma Marie que, segundo ele, foi a culpada por nosso afastamento, por não deixá-lo me procurar. Ora, que ela era maluca, possessiva e doentiamente ciumenta, nenhuma dúvida. Mas cabia a ele ter colocado limites e imposto aquilo que não era apenas o correto, era o obrigatório. Pois cuidar de filho pequeno, e de pai moribundo, é obrigação. Eu sei disso e, na minha vez de cuidar de filhos e pai, procurei fazer minha parte: com indescritível prazer no caso dos filhos, com dificuldade e crises no caso do pai. Em nenhum dos casos, porém, achei que cabia colocar em dúvida o que era minha obrigação. O que ele fez foi exatamente isso, colocou em dúvida, fugiu e achou, convenientemente, outras pessoas para culpar: primeiro a mãe, culpada pelas fraquezas emocionais; depois Marie, com uma culpa mais concreta, por assim dizer, pragmática. Jacques e Donana, meu avô e minha avó torta, podem ter tido seus defeitos, mas foram pai e mãe, de fato, para Jean. Nunca o abandonaram. Ele, sem qualquer remorso aparente, os deixou na mão na pior hora.

Marc dizia que Jean, mais velho, foi importante para ele, que ensinou muita coisa, inclusive a apreciar música e artes plásticas. Ele diz que não consegue ouvir Vivaldi sem pensar em Ubatuba, e não pensa em Ubatuba sem se lembrar de Vivaldi. Mas, apesar da gratidão e das boas lembranças, transcorridos estes muitos anos, acabou percebendo que o comportamento do irmão não era equilibrado, que Jean o usava como “ombro amigo” de forma excessiva, jogando sobre o caçula uma carga de desabafos emocionais que Marc não tinha a menor capacidade de absorver. O mesmo ele fez, sempre que teve oportunidade, comigo, com a B., crianças ainda, ou  com quem se apresentasse diante dele. Como sabia ser sedutor e convincente, todos ficavam comovidos com as versões dele dos problemas; no meu caso, quando era eu o interlocutor, o tema central era o quanto a Marie era um monstro louco e doente que o perseguia, ou então reclamações sobre falta de dinheiro. Ora, eu não tinha idade ou maturidade para tratar desses assuntos, mas ele não estava nem aí com isso, o importante era desabafar.

Será que há alguma generosidade escondida atrás da cortina numa pessoa visceralmente egoísta? Pode-se vislumbrar a fagulha da genialidade num fofoqueiro de periferia? Será possível sentir força em alguém extremamente fraco? Pode-se encontrar as marcas da emoção numa personalidade seca e travada? Será possível que possam conviver, numa mesma pessoa, pacificamente, a genialidade não convencional de um Vladimir Nabokov e a mediocridade piegas de um Louro José?

Nos últimos dias de meu pai o lado Louro José crescia e crescia, e já quase não se via mais o lado Nabokov... E no entanto eu o amava, eu tenho saudade, às vezes esqueço que ele morreu e ainda acho que está por perto, que vai telefonar, ou aparecer, trazendo de presente um livro debaixo do braço, e que vamos nos irritar, e ao mesmo tempo rir, das suas idiossincrasias.

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Postado em 09.02.2010 | 18:02 | André Caramuru Aubert
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“I was the shadow of the waxwing slain
By the false azure in the windowpane;
I was the smudge of ashen fluff – and I
Lived on, flew on, in the reflected sky.

(…)

There was the day when I began to doubt
Man’s sanity: how could he live without
Knowing for sure what dawn, what death, what doom
Awaited consciousness beyond the tomb?

And finally there was the sleepless night
When I decided to explore and fight
The foul, the inadmissible abyss,
Devoting all my twisted life to this
One task. Today I’m sixty one. Waxwings
Are berry-pecking. A cicada sings.”

Vladimir Nabokov, Pale Fire




Meu pai em nossa casa, uns tres anos antes do fim

Meu pai em nossa casa, uns tres anos antes do fim

Quanto será que meu pai foi daquela pessoa que eu admirei? Quanto terá sido da que magoou e a mim e a outros? E quanto ele foi, por fim, da pessoa que me envergonhava? Quem era ele, afinal? Quando eu era pequeno e saía com ele, me sentia dono do mundo, orgulhoso, ao lado daquela figura alta e forte. E uma vez ele foi me encontrar, na porta da escola, eu estudava no Palmares, estava no primeiro ou segundo ano do colegial, ele veio andando com aquele estilo desajeitado de pato, os pés abertos, dez pras duas, meio como Carlitos, ele dizia que era uma marca registrada dos Aubert, eu sempre prestei atenção para não fazer igual. Ele vestia uma capa de chuva estranha, camisa xadrez de gringo, e eu me senti constrangido na frente dos meus amigos. Ele teve, durante muitos anos, uma perua Ford Belina, modelo antigo, daquelas que tinham decoração imitando madeira nas portas e nos paralamas laterais. Quando, um dia, uma daquelas placas caiu, ele comprou um rolo de contact, um adesivo que se usava muito, para encapar cadernos e forrar mesas de cozinha, escolheu um com padrão parecido, e colou no lugar. Embora razoavelmente bem feito, porque ele era habilidoso, o remendo saltava aos olhos. Ele se sentia esperto, enganando todo mundo, como se o carro fosse novinho em folha. Já algum filho, que andasse ali, especialmente se estivesse perto da escola, com todos os colegas olhando, queria se enterrar de vergonha... Ele podia ser engraçado e fazer as pessoas rirem, mais pela forma do que pelo conteúdo. Ou, em outras palavras: quando ele contava uma piada e as pessoas davam risada, ele não percebia que, na verdade, a piada era ele, o jeito dele, o sotaque, o pacote todo. Ele era pródigo em viver situações ridículas, como no caso em que, em Washington, nos Estados Unidos, acordou cedinho para ver monumentos históricos nas rotatórias das autopistas e, quando pensou em ir embora, o trânsito era intenso e ele não conseguia atravessar a pista, tendo ficado horas preso. Havia situações, e esta foi uma delas, em que ele era, sem perceber ou admitir, a personificação exata do Monsieur Hulot. Essa era a parte folclórica, que poderia incomodar um filho pelo ridículo que o pai encarnava, mas que depois de um tempo servia para contar causos e dar risada. Essa parte, enfim, não é, não era, o problema.

Começamos a nos aproximar um pouco quando eu já estava na faculdade, no começo dos anos 80. Ele, encontrou, então, alguma interlocução em mim, e vice-versa. Quando vinha a São Paulo para comprar material de trabalho, livros ou visitar clientes, ele tentava passar em casa, às vezes para almoçar, às vezes só para fazer uma horinha. De vez em quando me levava um livro de presente, e a conversa sempre começava com a pergunta: “O que você está lendo atualmente?” Eu, que ainda tinha um respeito enorme por ele, recitava, bem comportado: “para Grécia estou lendo fulano, cicrano e beltrano, para Arqueologia Mediterrânica, estes outros aqui, para Idade Média...” Em algum momento por aí eu comecei a namorar a Clélia e ela, com o olhar de quem está de fora, ficou impressionada. Ela me achava o maior metido, e eu era mesmo, mas perto de meu pai ela via eu me encolher todo, quase que pedindo desculpas, eu virava um menininho, submisso e inseguro.

Aos poucos, então, comecei a me dar conta de um outro traço dele: a extrema competitividade. Logo de cara, percebi que eu não estava autorizado a saber mais história que ele, e o problema é que de fato eu estava sabendo, pois estava desenvolvendo um conhecimento estruturado, acadêmico, enquanto ele tinha aquele saber do amador curioso, e nem mesmo conseguia situar e diferenciar claramente as posições teóricas dos autores que lia, que eram, na maior parte dos casos, obras de divulgação, de história para o grande público. Nessa época comecei também a escrever mais, inclusive a tentar algumas coisas na literatura. Eu passava para ele, ele não comentava o que eu havia escrito, ao invés disso me passava textos dele para saber o que eu achava. Mais recentemente, mas bem antes dele ir para minha casa para morrer, eu falei da Trip e das colunas que estava escrevendo, e ele não leu. No hospital, a Clélia levou uma Trip para ele, e aí ele não teve como fugir: “Non é bem meu estilo de revista, mas o texto está, hum hum, ok”. Esse foi o único comentário que eu jamais receberia dele a respeito de um texto meu publicado em algum lugar, fosse Estadão, InfoExame, Jornal do Brasil, IDGNow ou Trip. Ele não lia o que eu escrevia, mas levou para mim um esboço de memórias, em forma de crônicas, que estava escrevendo, e sempre me perguntava se eu tinha lido. De birra, não li. Acabei pegando o volume encadernado para folhear só depois que ele tinha morrido. Havia ali muitas histórias, a maior parte das quais eu já conhecia de ouvir, que cobriam a viagem a Mato Grosso, a travessia, a pé pela mata, de Parati a Ubatuba, em mil novecentos e cinquenta e poucos, a infância na Europa, como as férias que ele passou com meu avô Jacques na Normandia, (quando ele já morava em Londres na casa do avô materno, e Jacques ainda vivia em Paris), na região que alguns anos depois seria terrivelmente castigada pelo desembarque aliado do Dia D, e cujos anúncios oficiais, em praça pública, ainda eram feitos por um arauto, como na Idade Média, que tocava uma corneta e depois lia, bem alto, a mensagem do prefeito. Mas o que acabou me chamando a atenção, nos textos, foi que, embora decentemente redigidos, eram totalmente carentes de emoção. Não por acaso, havia pouquíssimas menções a mãe, ao pai, a Alzira ou a Marie, a B. ou a mim. E, quando havia, eram tão frias e distantes quanto possível. E curiosamente, eram escritos em inglês, a língua materna, talvez o lugar da eterna busca pelo afeto perdido, mas que, de qualquer forma, não era uma das línguas com as quais ele era mais fluente, o francês de Genebra, da casa do pai, da escola, ou o português dos mais de quarenta anos de Brasil.

oleo de Jean Aubert, da fase geometrica, 1982

oleo de Jean Aubert, da fase geometrica, 1982

Outra coisa que ele prezava muito era uma suposta cultura linguística. Além do seu francês nativo, procurava (e acreditava, embora não conseguisse) falar inglês perfeito e se gabava de dominar o italiano, o alemão e alguma coisa de russo. O mais engraçado, porém, é que afirmava sem qualquer constrangimento que falava o português melhor do que a maioria dos brasileiros, quando na verdade tinha um sotaque fortíssimo, como se tivesse acabado de chegar ao Brasil. Como poderia falar perfeitamente línguas que quase não praticava, enquanto o português do dia a dia saía “non ton bon assim?” Uma muito boa que ele contava é que sempre que comprava pão, numa padaria em Itapecerica da Serra, os funcionários do lugar riam dele: “Eu non entende porque eles don risada de nós, será que por acaso eu fala algun coisa erada, será que nós tem cara estranha?” Jean era muito inseguro, e gostava de se mostrar sempre culto, embora, carecendo de uma formação mais acadêmica (exceto pelas artes plásticas), acabava misturando estações. Consumia livros de maneira voraz, mas gastava sem muito critério tanto na Livraria Cultura quanto na banca de jornais. Das bancas, era viciado em fascículos (que ele comprava até o fim, e depois encadernava) e coleções, incluindo, que eu me lembre, de soldadinhos, aviõezinhos, cristais e dedais, muitas dos quais acabariam nos quartos da Anna e do Pedro.

Desprezava, jurava, a televisão, olhando com desdém quando alguém comentava que tinha assistido a algum programa interessante na telinha, ainda que fosse um documentário bem sério e chato. Nessa hora, ele disparava: “hum, hum, eu nom tem nada contra o televisón, mas eu prefere sempre un bon livro.” E aí, quando ele estava em nossa casa, doente, com TV a cabo no quarto,  antes de sair de manhã, para trabalhar, eu passava por lá. E, bingo, todo dia, estava a Ana Maria Braga e o Louro José tagarelando diante dele. Eu achava que era coisa das enfermeiras, e falava: “pai, você não tem que assistir isso, é só mudar o canal, olha, tem canal só de notícia, tem o National Geographic, tem o Discovery...” e aí eu punha num destes canais para ele, e ele agradecia. Até que um dia ele se cansou de fingir e, quando eu fui mudar, ele falou: “Non, non, non muda. Deixa aí no Ana Maria Braga, o meu amiga de todos os manhãs...” Não, a culpa não era das enfermeiras, não eram elas que mudavam de canal. Quem gostava do Louro José era ele mesmo.

A Marie tinha ciúmes de tudo e, quando, vivendo bastante isolados, não havia mais mulheres em potencial com as quais pudesse se preocupar, ela se voltou contra a obsessão de Jean pelos livros. Então começou um joguinho entre eles, em que ele comprava livros escondido e ela fingia não perceber; ela, por seu lado, pegava cachorros na rua e levava pra casa, e ele também fazia que não via, o que é relativamente fácil quando existem cerca de cem vira-latas espalhados pela casa. O fato é que, numa época em que as entradas de dinheiro estavam diminuindo muito, e eles envelheciam, a prudência dizia que deveriam ter guardado alguma coisa, mas não, torravam a grana aceleradamente, ela alimentando, tratando, sacrificando e enterrando centenas de cachorros, e ele saindo toda semana da Livraria Cultura com três, quatro ou mais livros importados debaixo do braço.

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Postado em 04.02.2010 | 13:02 | André Caramuru Aubert
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Do meu ponto de vista, já causava estranheza também o fato de que, ao crescer, as diferenças entre estilos familiares começavam a ficar mais claras. Até porque, embora houvesse uma inegável coragem, de meu pai e Marie, em deixar de lado as convenções e apostar numa vida meio hippie, essa percepção era difícil para mim. E as posições conservadoras deles já me incomodavam. Menos as referentes a política, que ainda não significavam grande coisa, mas com relação a educação, a relacionamento entre pais e filhos. Eu acreditava gozar de um respeito e de uma liberdade, em casa, que não tinha quando ia vê-lo. Em casa eu escolhia se ia tomar banho ou não (em geral, não ia), e quando. Escolhia o que comer, e quanto. O que vestir, o que fazer, se brincar, ler ou ver TV. Não que minha mãe não fosse também, do seu jeito, autoritária. Mas o estilo dela era aquele mais manso, mais manipulador, em que você acaba fazendo as coisas que ela espera que você faça, mas você pensa que a decisão foi sua. De uma forma ou de outra, quando estava com meu pai, a autonomia era muito menor, às vezes nenhuma. Em qualquer lugar que estivesse, eu encarava de frente quem me tolhesse as liberdades que, eu acreditava, se minha mãe me dera, não era algum fulano que iria tirar. Lá, não. Lá, mais do que o respeito por meu pai, eu morria de medo da mulher dele.

Carouge, Genebra, óleo de Jean Aubert, novembro de 1949

Carouge, Genebra, óleo de Jean Aubert, novembro de 1949

Teve uma vez, na rua Joinville, que, no almoço, como sempre, ela fez meu prato. Comecei a comer, e achei a carne do bife horrível. Não sei o que era aquilo, só sei que não dava para engolir. Só que não havia saída. Estava no prato, não podia sobrar. Do alto da minha sabedoria de criança, concluí que era carne de gente. Quando cheguei a essa conclusão, tudo ficou claro, era uma certeza absoluta e não dava mais para engolir um pedaço que fosse. Tinha gosto de carne de gente, só podia ser carne de gente! Aquele foi, possivelmente, o almoço mais difícil da minha vida. Porque eu não podia engolir a carne, mas também não podia deixar que sobrasse no prato. Então eu punha na boca um por um cada pedaço de carne, mastigava, mastigava, mastigava. E disfarçava, disfarçava, disfarçava. E dava um jeito de limpar a boca com o guardanapo, tirar o pedaço da boca, levar o guardanapo ao colo e esconder a carne no bolso da calça. Não sei como, consegui esconder um bife inteiro, em pedaços, sem ser descoberto. E nem sei se ela não me fez repetir, já que eu parecia ter gostado tanto do primeiro bife. O engraçado é que passei muitos anos acreditando que aqueles bifes eram realmente de carne de gente. Bem mais tarde é que concluí que aquilo devia ser carne muito barata, ruim mesmo: menos antropofagia, mais falta de dinheiro ou pão durice mesmo. Fosse com carne humana ou de vaca, o fato é que nessa época passava os fins de semana com eles não mais do que duas ou três vezes por ano.

Em algum momento, nessa época, eu meio que desisti de meu pai. Quantos anos eu tinha, exatamente? Talvez nove, ou dez. Haviam sido muitos anos de rejeição, e a coisa de alguma maneira se acumulara. Não que isso estivesse claro, então; que fosse uma decisão planejada, racional ou consciente. Acho que simplesmente aconteceu, ou foi acontecendo, sem que eu tenha percebido o processo. Ainda tinha um amor enorme e uma quase veneração por Jean, mas já não fazia questão de vê-lo. Até porque para vê-lo, teria que abrir mão de um fim de semana em Ubatuba, ou mesmo na fazenda de meu avô. E preferia ir para Ubatuba, que era um evento que me fazia atravessar a semana inteira em contagem regressiva. Durante um bom tempo, eu vi meu pai uma ou duas vezes por ano, no máximo. Pois agora, mesmo quando ele queria, eu já não fazia questão. E, para falar a verdade, não acho que ele quisesse muito. É que, para ela, manter as aparências de uma família normal era algo muito importante, e numa família normal o filho do primeiro casamento tem que aparecer, de vez em quando.

Ilha Grande, Angra, 1974 ou75

Ilha Grande, Angra, 1974 ou75

Ao longo dos anos seguintes, conforme a B. ia crescendo, aumentava também a pressão para que eu brincasse com ela. Ela, que não tinha culpa por nada daquilo, ouvia falar o tempo todo do “Irmão mais velho”, ao passo que eu passava meus dias sem nem sequer me lembrar que ela existia. Ora, ela para mim era pequena, menina, e esquisita, porque criada por aqueles malucos, além do fato de que os malucos eram gringos e ela era uma perfeita gringuinha no exílio, que aprendeu a falar francês antes do português e viria a fazer toda a vida escolar em escolas francesas. O pior de tudo, porém, é que não tínhamos intimidade, pois não crescíamos juntos vivendo como irmãos. E irmãos que crescem juntos desenvolvem uma intimidade, baseada ora na mútua arreliação, ora no mútuo apoio, que nós, infelizmente, não tínhamos. De forma alguma eu não gostava dela. Ela era uma criança bonitinha, doce, tranquila. Posso dizer tranquilamente que não tinha ciúmes dela, que não a via como alguém que estava roubando meu pai de mim. Essa perda, na verdade, acontecera antes dela nascer. Só que eu, supostamente, devia tratá-la como irmã, e isso eu não sentia que eu era, eu não queria e nem mesmo, no fim das contas, saberia como fazer. Então, às vezes eu estava lá, matando o tédio do tempo que não passava lendo algum livro, e meu pai entrava na sala: “Você devia ir brincar um pouco com a sua irmãzinha.” Aí eu ia. Vamos brincar de Forte Apache? Ela topava, mas não sabia brincar, não queria que soldadinhos ou índios morressem, e melava tudo. Então vamos fazer corrida de carro? Vamos. E aí eu ia pedalar o jipinho verde musgo do exército enquanto ela corria com o tico-tico, eu naturalmente ganhava e ela ficava triste, então, sob os olhares vigilantes de mãe (dela) e pai (nosso), eu tinha que deixá-la ganhar, e a brincadeira acabava, melada de novo. Na verdade, a vida da B., com eles, foi infinitamente mais difícil que a minha, e isso não apenas naquela época, mas sempre. Mas eu era então muito criança para perceber, e mesmo que conseguisse, isso pouco teria mudado minha relação com ela.

Praia Grande, Ubatuba, 1976

Praia Grande, Ubatuba, 1976

Mas acho que o grande divisor de águas no fim da vontade de ir para lá ocorreu num certo fim de semana em que, por algum motivo, era conveniente para Jean et Marie que eu fosse para a casa deles. Eu não queria ir, era um fim de semana de Ubatuba. Minha mãe ficou numa saia justa, porque ficava parecendo que ela é que não estava deixando, e insistiu comigo para que eu fosse. No fim chegamos a um acordo: eu iria para lá depois da escola, na sexta-feira, e quando ela e o Ewaldo fossem para Ubatuba, à noite (eles nunca viajavam cedo), eles me pegariam lá. Pareceu um acordo justo, e topei. Meu pai topou, mas não teve coragem de contar para a esposa. Então, à noite, quando ela soube, ela deu um escândalo daqueles, dos clássicos. Berrava para o bairro inteiro ouvir, batia portas, quebrava objetos. Saudades do André? É óbvio que não. O que ela berrava era que “eles” não me queriam lá, que não confiavam nela para cuidar de mim, que ela não era respeitada. O problema dela era sempre ela. Jean, fraco e inepto como sempre, fingiu que não era com ele e não se posicionou. Não conseguia enfrentá-la, não teve coragem de dizer que aquela era a combinação que havia sido feita, que ninguém me proibira de ficar lá, que era eu que queria viajar. Então, ao invés disso, ele, covardemente, me pediu para ficar. Eu me senti espremido, queria ir embora dali, mas tive pena de meu pai. Pelo telefone, minha mãe me disse que eu só ficaria se quisesse, que não estava obrigado. Mas a verdade é que, do lado de lá, ela também não fez muita força para enfrentar a situação, não queria confronto. Acabei ficando. Foi o fim de semana mais longo da minha vida. Passei aterrorizado cada minuto, imaginando quando aquela louca iria ter outro ataque (e sim, ela os teve), e ao mesmo tempo imaginando, a cada minuto, o que eu estava perdendo por não estar na minha verdadeira casa, com a Generosa, a Rosely, meus amigos, o mar.

Talvez porque eu tenha tido a dor de ver claramente a fraqueza e a miopia de meu pai cedendo gaguejante diante da loucura agressiva da mulher dele, talvez porque eu tenha experimentado uma forte sensação de “não pertencimento”, a verdade é que, ali naquela casa, durante aquele fim de semana, alguma coisa se quebrou em mim, com relação a meu pai, para sempre.

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Postado em 02.02.2010 | 12:02 | André Caramuru Aubert
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“You try so hard
But you don’t understand
Just what you’ll say
When you get home

Because something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones?”


Bob Dylan, Ballad of thin man



Agora, enfim, eu ia conhecer minha irmãzinha. Situação, no mínimo, confusa. Eu não vira meu pai se casar. Não conhecia sua casa nova. Mal tivera contato com a felizarda noiva. E agora eu ganhava uma irmã. E eu devia, supunha-se, ou pressupunha-se, estar feliz com isso. Mas eu não estava feliz, nem infeliz tampouco. Não estava nada. Quando vi a B. pela primeira vez, ela estava numa cômoda, com a fralda sendo trocada pela mãe. Lembro do cheiro, cheiro de creme, de hipoglós, acho. E de algum perfume de neném, não sei se já havia por aqui, pelo menos se havia eles não usavam, fraldas descartáveis.

No verso está escrito  To Jean Aubert with love from Daddy, 27 July 1937

No verso está escrito To Jean Aubert with love from Daddy, 27 July 1937

Meu pai ainda trabalhava na Volkswagen, mas já buscava uma porta de saída, pois não suportava aquilo. Ele naqueles dias quase não pintava. Marie era pianista, chegara a tocar em concertos de menor vulto, e agora estava entre seguir dando aulas de piano para crianças e adolescentes ou virar dona de casa e mãe em tempo integral. Claro, isso tudo entre as crises de loucura. O parto da B. não foi bem. Contou-se que a Marie passou muito mal, que quase morreu, e com consequências sérias para a saúde e a impossibilidade futura de ter outros filhos. Não sei. Pode ser tudo invencionice de maluco, de gente que gosta de drama, e a Marie era assim. Mas pode também ser verdade. E pode ser um pouco das duas coisas.

Confesso que é muito difícil, para mim, pensar e escrever sobre aquele período, aquele universo. Primeiro, porque tive pouco contato com aquilo tudo. Segundo, e mais importante, porque aquilo me incomoda, em muitos sentidos. E escrever sobre aquele universo é trazê-lo um pouco de volta, e refazer, na mente, os espaços, os cheiros, a tensão sempre no ar, como naqueles dias de bafo quente um pouco antes de uma tempestade de verão. Como era a vida deles, lá?

Eles tinham um grupo reduzido de amigos, alguns dos quais se reuniam lá, uma vez por semana, à noite, para ouvir música clássica. Eram, contando Jean e Marie, uns três ou quatro casais. Lunáticos, todos eles. Estava-se em fins dos anos 60, quase entrando na década de 70, tempos de Beatles, Woodstock, Bob Dylan, Jimi Hendrix e Janis Joplin, enfim, faça a sua escolha. E Jean e Marie, ela bem mais nova que ele, reuniam-se com amigos, para sorver programas musicais previamente acordados entre todos, em que um ou outro casal era incumbido de levar os elepês, cobrindo uma ampla gama de estilos: às vezes mais clássicos, com Bach, Mozart, os primeiros Beethoven; às vezes os românticos, com algum Beethoven, Liszt, Chopin; neo-clássicos, como Stravinsky, ou pós-românticos, como Mahler; ou ainda modernos, como Schoenberg, Berg, Shostakovich. E aí eles punham os elepês na vitrola e ficavam todos em silêncio, no máximo fumando um cigarro, ou cachimbo, olhando para o teto, para o vazio, levantando a sobrancelha ou franzindo a testa num trecho ou noutro. Quando acabava a audição, aí então podia-se falar, e criticava-se: “o andamento que Bruno Walter impôs à Sexta fez com que certos cromatismos se perdessem, penso que Toscanini saiu-se melhor aí.” “Ah, mas Toscanini alongou-se, o senhor há de concordar, um pouco demais, no segundo e terceiro movimentos”. “Não é mau pianista, mas acelera demais, Glenn Gould. Vai bem com Beethoven, mas com Schubert ainda prefiro Schnabel, que domina as pausas como ninguém.” (essa atitude pedante, aliás, meu pai nunca perderia, nem mesmo moribundo, pouco antes de morrer. E nem sempre o pedantismo, devo dizer, era baseado em conhecimentos sólidos; em muitos casos, senão na maioria, eram pura e simplesmente pretensão e chatice).

E ficavam nessa frescura pseudo culta, pseudo civilizada, bebendo com moderação, fumando o que a sociedade mandava fumar. Meu pai, cachimbo. Encerrado o programa e os debates que se seguiam, as visitas iam embora, e então era a hora da Marie começar seus escândalos, acusando Jean de ter flertado com fulana, ou beltrana de ter olhado estranho para ele, e assim por diante. O ciúme dela, de qualquer coisa, era tão grande que, quando eu ia para lá, minha mãe não podia me levar. Eu ia com a Bê, ou com o Ewaldo. Na época, as coisas eram até boas. Com o tempo, elas ficariam muito piores, pois eu nunca ouvi falar que loucura melhore com a idade, além de que ela passou a beber muito, e os escândalos passariam a ocorrer também, e principalmente, enquanto as visitas estavam presentes. Os ataques de ciúme dirigidos contra o atrapalhado, inepto e tímido Jean, que jamais teria a capacidade de, digamos, agarrar uma senhora na cozinha, enquanto os outros estivessem na sala, em plena tertúlia cultural, não impediam que, a partir de um certo momento, ela fizesse exatamente isso: agarrasse visitas em algum cômodo da casa, enquanto Jean estivesse contando interessantíssimas histórias dos tempos dos escoteiros, para outras visitas, na sala ou no jardim. Para meu pai o saldo da relação com ela ainda traria outro prejuízo: tímido, com pouquíssimos amigos, ele ainda perderia, com a Marie, o contato frequente com seus pais e irmãos, especialmente meu tio Marc, de quem ele gostava muito, e que ela conseguiu afastar. Ele contava, sempre magoado, a história de que um dia, ao entrar em um restaurante em Santo Amaro, com Marie, viu numa mesa Jacques e Donana, que já moravam no Rio, jantando com outras pessoas. Como? O pai viera a São Paulo e não o avisara, não o procurara? A mágoa dele foi enorme. Mas, ora, eram sinais dos tempos, do relacionamento com Marie, que o pusera à parte de tudo e de todos. E, passado o choque inicial, ele não tardou em culpá-la. Era muito fácil, porém, responsabilizar a mulher. No fim das contas, para todas as besteiras que fez na vida, Jean costumava ter à mão, sempre, duas grandes desculpas: primeiro a mãe, com a história do Grande Abandono, e depois a Marie, com sua louca possessividade.

Com relação a Volkswagen, a porta de saída começou a ser construída nessa época. Meu pai e Marie começaram a estudar técnicas antigas de esmalte sobre metal e, inicialmente como hobby, passaram a criar peças de bijouteria, como colares, brincos e anéis, esmaltadas. Eles transformaram a sala da frente da “Joanvile” em ateliê, instalaram no meio dela uma grande mesa e compraram um forno. Logo eles compraram um espaço na feira hippie da Praça da República e, aos domingos, instalavam lá uma barraca e vendiam as peças. Como o trabalho era original e inusitado, eles vendiam razoavelmente bem, até que, a partir de um certo ponto, meu pai decidiu que dava para sair da Volkswagen e se dedicar ao artesanato em tempo integral. Eles ficavam o dia inteiro na oficina, como chamavam a sala transformada em ateliê. A Marie acabou se especializando nas peças menores, nas bijouterias, enquanto meu pai cuidava mais das coisas maiores. Tinha um rádio, que ficava o tempo todo sintonizado na Cultura FM, e quando uma música acabava, não importa o que você estivesse falando, os dois faziam “Psiu!!!”, bem alto, e se concentravam para ouvir o locutor falando com aquela voz eternamente pomposa da Cultura: “de Igor Stravinski, A Sagração da Primavera, Orquestra da Rádio de Praga, regência de...” Só depois de dada a ficha técnica, com algum eventual comentário, é que se poderia falar novamente.

São Luís do Paraitinga, guache de Jean Aubert, 1956

São Luís do Paraitinga, guache de Jean Aubert, 1956

O negócio evoluiu. Eles passaram a frequentar também a feira hippie do Embú e, depois de algum tempo, conforme também eles dominavam mais e mais as técnicas do esmalte, começaram a surgir novas frentes comerciais. A fábrica de lustres Dominici, por exemplo, passou a comprar peças maiores, para montar luminárias. E empresas de brindes encomendavam caixas, porta-lápis e cortadores de papel esmaltados, com logotipos personalizados de clientes, dos quais me lembro de alguns com General Motors, IBM e Varig. Algumas tentativas de arte “pura”, em esmalte, também foram tentadas por meu pai, que estilizou obras suas e de artistas com os quais se identificava, como seu amigo Lothar Charoux, e conseguiu espaços privilegiados para algumas exposições, incluindo o MASP.

Conforme essa atividade com o esmalte se desenvolvia, meus eventuais fins de semana com eles incluíam manhãs passadas numa barraca, na Praça da República ou no Embú, ajudando a vender. Eu tinha sentimentos conflitantes com relação a isso. Por um lado, queria continuar me orgulhando de meu pai. Por outro, me sentia envergonhado dele e da situação, de ficar sentado numa barraquinha, vendendo bijouterias, na verdade sofisticadas, mas isto não era muito claro para mim, ao lado de pessoas que vendiam bonecos de gesso do Mickey e quadrinhos de feltro da Turma da Mônica, para um público estranho e que me parecia primitivo. Nesse ponto, me parece, o problema era mais meu do que deles. Já era o ranço de família quatrocentona de minha mãe se manifestando, revoltado, numa situação que para mim soava subalterna e menor, e que para um gringo parecia absolutamente normal. No futuro, quando perguntavam a meu pai o que ele fazia, ele respondia “artesanato”, algo que me incomodava. Eu respondia, sempre, “arte”. De qualquer forma, a capacidade de trabalho dele, e de Marie, era enorme. Eles produziam aquele artesanato a semana inteira, às vezes até tarde da noite, e nos fins de semana ainda iam montar barraca em feira.

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