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Postado em 25.11.2009 | 13:11 | André Caramuru Aubert
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Passaporte de meu pai

Passaporte de meu pai


Enquanto a Guerra trucidava europeus e outros mundo afora, meu pai teve uma vida relativamente boa na Suíça. Não havia fartura, mas não faltava o essencial. A editora faturava e permitia que meu pai frequentasse boas escolas e levasse uma vida normal. Entre seus amigos estava o filho de Jean Piaget, cuja casa ele frequentava. Como foi nessa época que o pedagogo construía as bases de sua obra, e sabidamente a observação de seu filho foi uma das bases de seus estudos, é provável que meu pai tenha também servido, sem saber, de cobaia (o que talvez explique alguns problemas na “teoria” piagetiana...). Mas a bonança não duraria para sempre. Quando, no começo de 1945, a Guerra finalmente acabou na Europa, e as editoras francesas voltaram gradativamente a respirar, as coisas na família de Jean começaram a mudar, e para pior. Em pouco tempo, as casas Hachette e Skirra, entre outras, voltavam a ocupar as vitrines das livrarias suíças. Maiores, mais capitalizadas, com mais títulos, produção em grande escala, elas iam, mês a mês, sufocando a Editions du Rhone. Em nada ajudava, é claro, a completa falta de talento comercial de Jacques. No começo da década de 50, a situação estava se tornando insustentável. Jean já deixara a prestigiada International School e estava no então pobre Lycée público.

Meu avô ainda tentou uma cartada. Foi conversar com os primos banqueiros, pedir dinheiro, emprestado ou vendendo participação, o que fosse, para alavancar e fazer crescer a editora, pondo-a para brigar em Paris, e não apenas se defender em Genebra. Mas, nada. As portas estavam fechadas. O passado boêmio, a vida de artista, de jornalista em Paris, tudo isso, além do pragmatismo frio dos banqueiros, tudo isso cobrava agora seu preço. Ele podia ser um Aubert, mas era uma ovelha negra. Não era um calvinista devoto, não ligava paras as convenções, sempre fizera pouco caso da família e, principalmente, não era banqueiro, médico ou advogado. Embora não devesse, ele se surpreendeu com a fria recepção dos familiares.

Aberdeen, Escócia, óleo de Jean Aubert

Aberdeen, Escócia, óleo de Jean Aubert

Nesse meio tempo, um irmão de Donana havia viajado ao Brasil para administrar uma fazenda. Engenheiro agrônomo formado na Rússia, ele escrevia contando maravilhas do país do futuro, e que havia muita riqueza, abundância de empregos, etc. E, com a Europa completamente destruída, o Brasil podia parecer mesmo o país do futuro. Jacques então decidiu fechar a editora antes que a falência fosse inevitável, vender o que podia e seguir o cunhado para a terra dos papagaios. Nesse momento Jean, com dezoito anos, já estava na Universidade, estudando artes plásticas e sociologia. Costumava viajar de bicicleta nas férias, acampando, e com isso havia conhecido a Europa quase inteira. Estava feliz, tinha amigos, tinha namorada. Assim, é óbvio que ele não queria vir ao Brasil de jeito nenhum. Mas não conseguiu se ver novamente sem pai e mãe, ao mesmo tempo em que teria muitas dificuldades práticas para comer, se vestir e viver sozinho em Genebra, com uma família tão pouco acolhedora, sendo que a família inglesa era, naquele momento, uma completa desconhecida. Assim, muito a contragosto, no início de 1950 Jean embarcou, com seu pai, madrasta e meio-irmãos, para uma Londres em reconstrução. Segundo meu tio Marc, que era bem mais novo e ficou marcado pela experiência, a travessia do Canal da Mancha ocorreu sob péssimas consições climáticas, com vento, chuva e o navio balançando muito, açoitado por ondas enormes. Meu pai, irmão mais velho e metido a marinheiro experiente, encarava tudo com serena superioridade, enquanto seu irmão menor sofria, enjoava e vomitava. (Em Londres, onde pararam por alguns dias, viram a troca da guarda escocesa no palácio de Buckingham e outros programas para turistas, e a cama do hotel barato onde eles se hospedaram era curta, deixando as pernas de meu pai para fora) Da capital inglesa eles embarcariam em seguida para o porto de Santos, e daí para São Paulo, onde uma nova e promissora vida os aguardava.

Les Voirons, Genebra, 1948, óleo de Jean Aubert

Les Voirons, Genebra, 1948, óleo de Jean Aubert

Aqui chegando, porém, eles rapidamente descobriram que as histórias do cunhado russo de meu avô eram, na melhor das hipóteses, bastante exageradas, que as perspectivas não eram tão boas e que não havia tanta oportunidade assim, ainda mais para uma família de artistas, com isenção completa de pragmatismo e sem a menor capacitação para atividades produtivas normais, como comércio e indústria. Como de imediato descobrissem que o interior de São Paulo nada tinha a lhes oferecer, eles foram morar em Santo Amaro, na época o bairro preferencial de alemães e outros europeus, e se viraram. Jacques acabaria se tornando funcionário do Consulado suíço e, como anos antes em Paris, correspondente sazonal dos jornais de Genebra. Jean foi trabalhar inicialmente na Swift, empresa de alimentos processados, em contabilidade, atividade para a qual ele não tinha qualquer formação prática e tampouco qualquer talento. De qualquer forma, meu pai logo encontrou outros jovens estrangeiros, especialmente franceses, com os quais fazia programas e viajava para acampar. E nesse grupo havia uma jovem brasileira totalmente hipnotizada por tudo o que fosse europeu e, uma coisa leva a outra, eles logo se apaixonariam.

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Por André Caramuru Aubert

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