Passaporte de meu pai
Enquanto a Guerra trucidava europeus e outros mundo afora, meu pai teve uma vida relativamente boa na Suíça. Não havia fartura, mas não faltava o essencial. A editora faturava e permitia que meu pai frequentasse boas escolas e levasse uma vida normal. Entre seus amigos estava o filho de Jean Piaget, cuja casa ele frequentava. Como foi nessa época que o pedagogo construía as bases de sua obra, e sabidamente a observação de seu filho foi uma das bases de seus estudos, é provável que meu pai tenha também servido, sem saber, de cobaia (o que talvez explique alguns problemas na “teoria” piagetiana...). Mas a bonança não duraria para sempre. Quando, no começo de 1945, a Guerra finalmente acabou na Europa, e as editoras francesas voltaram gradativamente a respirar, as coisas na família de Jean começaram a mudar, e para pior. Em pouco tempo, as casas Hachette e Skirra, entre outras, voltavam a ocupar as vitrines das livrarias suíças. Maiores, mais capitalizadas, com mais títulos, produção em grande escala, elas iam, mês a mês, sufocando a Editions du Rhone. Em nada ajudava, é claro, a completa falta de talento comercial de Jacques. No começo da década de 50, a situação estava se tornando insustentável. Jean já deixara a prestigiada International School e estava no então pobre Lycée público.
Meu avô ainda tentou uma cartada. Foi conversar com os primos banqueiros, pedir dinheiro, emprestado ou vendendo participação, o que fosse, para alavancar e fazer crescer a editora, pondo-a para brigar em Paris, e não apenas se defender em Genebra. Mas, nada. As portas estavam fechadas. O passado boêmio, a vida de artista, de jornalista em Paris, tudo isso, além do pragmatismo frio dos banqueiros, tudo isso cobrava agora seu preço. Ele podia ser um Aubert, mas era uma ovelha negra. Não era um calvinista devoto, não ligava paras as convenções, sempre fizera pouco caso da família e, principalmente, não era banqueiro, médico ou advogado. Embora não devesse, ele se surpreendeu com a fria recepção dos familiares.
Aberdeen, Escócia, óleo de Jean Aubert
Les Voirons, Genebra, 1948, óleo de Jean Aubert





