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Postado em 09.03.2010 | 19:03 | André Caramuru Aubert
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Em Ubatuba, o ultimo banho de mar de meu pai

Em Ubatuba, o ultimo banho de mar de meu pai

Eu já experimentara perdas na vida, e elas foram, cada uma do seu jeito, sofridas. Perdi, muito cedo, tia Stellinha, uma sombra que me acompanhou pela infância afora. Mais tarde, adolescente, foi meu avô Brenno, um fim sofrido, pois um AVC o derrubou e incapacitou, mas a morte só viria uns cinco anos depois. Me lembro daquele gigante que foi, para mim, meu avô, sem conseguir andar, ou falar direito, a boca mole, pedaços de arroz no canto do lábio, à mercê de uma mulher de conduta duvidosa que não ligava para ele e de um enfermeiro, na melhor das hipóteses, profissional. Nunca me esqueci de um dia em que fui visitá-lo, o apartamento enorme e sombrio, ele na cama, as persianas do quarto abaixadas, cheguei perto, ele agarrou minha mão com toda a força que tinha, olhou em meus olhos, desesperado, triste, chorando. E berrou, se é que aquela voz torta e falha que saía dele, naquele momento, podia ser considerada um berro, e me mandou embora. “Vai embora, vai embora, não fique aqui, vai embora!” Era demais para ele, figura forte e altiva que sempre fora, ser visto naquele estado pelo neto. Eu obedeci e fui, com um travo na garganta, e lá embaixo consegui manter as aparências e dizer até logo ao porteiro, quando só o que eu queria era chorar, chorar muito e bem alto. Depois houve perdas de amigos, a pior tendo sido a do Nica, amigo tão querido, companheiro de tanta coisa, incluindo a viagem para Trancoso no Jipe Bandeirante dele, ouvindo Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e o Velô, de Caetano, que tinha sido lançado naquele verão, viagem na qual conheci a mulher com quem me casaria e onde todos nós quase morremos afogados, num fim de tarde na foz do rio Caraíva, graças ao excesso de maconha do maluco que pilotava a Onça, aquela grande e antiga canoa a vela.

Depois, no caminho, a morte foi recolhendo muita gente, a Bê, a Yá, tio Vicente... E por último, não fazia muito tempo, haviam morrido perto, uma da outra, minha avó Cleonice e Tia Yolanda, arrancando de mim tanta coisa, tanto afeto, tantas histórias. Meu pai? Ora, para perder meu pai eu estava pronto. Piores perdas, eu tinha certeza, tinham acontecido antes. Com relação a Jean eu achava que a casca já estava grossa, a cicatriz previamente formada, a imunidade, garantida.

Praia Vermelha, Ubatuba, guache de Jean Aubert

Praia Vermelha, Ubatuba, guache de Jean Aubert

Na mesma tarde do dia em que falei com B. pelo celular, lá estávamos no hospital, Clélia, as crianças e eu a fim de fazer a solicitada visita. Não sabíamos o que iríamos encontrar, mas esperávamos uma situação realmente ruim. B. estava lá quando chegamos, lágrimas nos olhos, num estado de pré-luto, e me abraçou bem forte, como se nada (ou algo) tivesse se passado naqueles dois anos e pouco em que não nos falamos. Estávamos todos, naquele momento, no quarto de meu pai. Ele parecia, mesmo, estar morrendo. Muito magro, estirado na cama, parecendo foto de judeu em campo de concentração ou, para fazer justiça a seu fenótipo, prisioneiro de guerra inglês em campo japonês na Malásia. Não sabíamos ainda que apenas parte daquele estado em que ele se encontrava se devia à doença. Porque a outra parte se devia, na realidade, ao possível fato de ele ter sido tratado, naqueles últimos anos, em sua casa, como, de fato, um prisioneiro de guerra. Meu pai chamou a todos para perto da cama, beijou e se deixou beijar. Era difícil não ficar contaminado por aquele ambiente de instantes finais, de extrema, por assim dizer, unção. Depois que todos foram beijados, ele, com um gesto de mão, pediu que se retirassem, menos eu. Era a conversa que ele queria ter comigo, a razão pela qual me chamara ao hospital. Falando baixo, quase sussurrando, ele admitiu que havia sido um péssimo pai, que sabia que, com relação a mim, não havia atingido os requisitos mínimos que são requeridos à paternidade.

Ele então pediu perdão.

Os olhos molhados de lágrima, a voz fraca, chorosa. Foi a conversa que, a partir de então, eu passei a chamar de “a conversa do perdão”. Eu fingi que acreditava que ele era sincero, ele fingiu acreditar que eu perdoava mesmo. E na verdade, eu perdoei. É que não se tratava disso, não acredito nisso. O que ele foi, como pai, e antes como filho, irmão e marido, são coisas que estão gravadas na história dele e na das pessoas que com ele conviveram, independentemente de se pedir ou não, e de se conceder, ou não, o perdão. Os buracos que ficam de anos e anos, as marcas, as mágoas e carências, nada disso se resolve com conversas de cinco minutos junto ao leito de morte. Leito que, além do mais, viríamos a perceber nos dias, semanas e meses que viriam a seguir ao nosso encontro, nem mesmo de morte era, ainda.

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