Em Ubatuba, o ultimo banho de mar de meu pai
Depois, no caminho, a morte foi recolhendo muita gente, a Bê, a Yá, tio Vicente... E por último, não fazia muito tempo, haviam morrido perto, uma da outra, minha avó Cleonice e Tia Yolanda, arrancando de mim tanta coisa, tanto afeto, tantas histórias. Meu pai? Ora, para perder meu pai eu estava pronto. Piores perdas, eu tinha certeza, tinham acontecido antes. Com relação a Jean eu achava que a casca já estava grossa, a cicatriz previamente formada, a imunidade, garantida.
Praia Vermelha, Ubatuba, guache de Jean Aubert
Ele então pediu perdão.
Os olhos molhados de lágrima, a voz fraca, chorosa. Foi a conversa que, a partir de então, eu passei a chamar de “a conversa do perdão”. Eu fingi que acreditava que ele era sincero, ele fingiu acreditar que eu perdoava mesmo. E na verdade, eu perdoei. É que não se tratava disso, não acredito nisso. O que ele foi, como pai, e antes como filho, irmão e marido, são coisas que estão gravadas na história dele e na das pessoas que com ele conviveram, independentemente de se pedir ou não, e de se conceder, ou não, o perdão. Os buracos que ficam de anos e anos, as marcas, as mágoas e carências, nada disso se resolve com conversas de cinco minutos junto ao leito de morte. Leito que, além do mais, viríamos a perceber nos dias, semanas e meses que viriam a seguir ao nosso encontro, nem mesmo de morte era, ainda.





















