Revista Trip

 
tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte
icone postado
Postado em 29.07.2010 | 11:07 | Luiz Mendes
divisão

ACOLHER  E  OFERECER

 

Grandes filósofos do passado consideraram a maior parte das pessoas estúpidas. Outros afirmaram a natureza humana como perversa. Correntes filosóficas modernas, pós-Freud, repudiam tais conceituações. Pesquisas e testes da atualidade (Q.I., por exemplo) indicam padrão mediano de inteligência para a maior parte das pessoas. Alguns se destacam e ainda existe a possibilidade do gênio. Mas mesmo estes somente o são em alguns aspectos. Noutros, primários como sobreviver por exemplo, são deficientes e morrem como moscas. Billie Holiday; Joplin; Hendrix; Morrison; para citar apenas gênios musicais, mortos no vigor da juventude. Qualquer um de nossos meninos de rua daria de dez a zero neles, em termos de sobrevivência às drogas.

Ao nascer, habitamos e somos habitados por outros. Aos poucos vamos nos distinguindo de uma confusa totalidade de coisas. Tornamo-nos rivais dos outros e nossa liberdade se cadastra como propriedade. Ela deve se deter exatamente onde principia a do outro. Depois da deseducação mutiladora, somos reduzidos a estarmos inteiramente sós. Somos, então, levados a lutar contra o outro qual fosse ele um limite a ser ultrapassado.

Tardei a perceber que o que havia de melhor em mim eram meus sentimentos para com o outro. E que ser humano não é aventura pessoal. Antes, uma conquista comunitária. Esse valor substituiu em mim a idéia da família tradicional. Sou pelo amor livre e recíproco, além do sangue, do dever, do interesse ou até mesmo do respeito.

Apanhei como um cachorro de meu pai. Queria me domar a pulso. Nem suas surras constantes, que me levaram à fome e a tragédia das ruas aos 11 anos de idade; ou os 31 anos e 10 meses de prisão que cumpri, conseguiram me domesticar. Nada impediu que eu me tornasse o homem que vou sendo.

Hoje me esforço por acolher e ofertar. Evito o vocabulário aflito porque sei; a dor é breve, como breve é a vida. As lajes, os telhados e as pessoas carecem de paz para ouvir os passarinhos cantarem. É difícil construir acolhimento; abraço redondo a aconchegar... Mas sei que fico inteligente somente quando estou sensível; logo, este é meu caminho. Embora para mim esteja claro que a noção de coexistência que possuímos é bastante precária. Diante qualquer crise, esperamos para ver o que sucede com os outros. Só depois de saber o que acontece é que tomamos atitudes que implicam em soluções coletivas.  

Quando o vizinho perder o emprego, apenas nos preocuparemos. Só quando perdermos nosso trabalho também é que pensaremos em fazer alguma coisa. Fazemos do outro objeto, como denuncia Sartre. O que acontece com ele é fonte de informação do que pode ou não acontecer conosco.

Na verdade, é complexo. Quase tudo com o que contamos esta envolto em dificuldades e inseguranças que suprimimos de nossa avaliação. É a única forma de seguir adiante. Se formos mais rigorosos em nosso exame, a precariedade de tudo nos deprimiria a ponto da imobilização.  A insegurança quanto ao futuro em uma economia instável e alavancada pelo endividamento, provoca o aprofundamento da crise que sempre estivemos vivendo.

Vivemos uma sociedade que parece estar em eterna formação. A pobreza, a saúde precária, a moradia complicada, a ignorância e a dificuldade de acesso aos meios culturais são a tônica. Com certeza teremos que nos ensinar a viver novos conflitos e descompassos sociais. Um silêncio grande nos envolve. Eu cá tenho minha saída pessoal. Vou escrever muito. Estou na maior torcida para que também encerre o ano escrevendo. Escrever é buscar, reprocurar, indagar e me indagar. Intervir diretamente na realidade que me cerca. E, ao intervir, acolho, ofereço, educo e ao educar, me educo.  

                                           **

Luiz Mendes

29/07/2010.

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 27.07.2010 | 14:07 | Luiz Mendes
divisão

 

A  Verdade

 

Eu devia ter uns 8 ou 9 anos de idade. A minha garganta vivia inflamada e tudo indicava que operaria as amídalas. Minha mãe acordava comigo na madrugada e, só com o café na barriga, pegávamos o ônibus para ir ao Hospital das Clínicas. Só havia dinheiro para a condução dela. Eu era pequeno e passava por baixo da catraca.

Geralmente eu vomitava no ônibus. Era começar a rodar para que minha cabeça rodasse junto e o engulho no estômago viesse automático. Minha mãe me ensinava a colocar a cabeça para fora. Uma vez pequei em cheio um jovem que vinha de bicicleta na contra mão. Foi rápido; não deu tempo para olhar. Coloquei a cabeça para fora e veio tudo um jorro só. O vômito bateu no rosto dele e o derrubou na calçada. Ficou lá, todo melecado e se limpando, sem acreditar.

O dia ainda não havia clareado e a fila para marcar atendimento já era enorme. As pessoas que reclamam não sabem o que é aguentar fila realmente. Ficávamos 5 ou 6 horas ali só para marcar consulta. Depois eram horas para ser atendido. E de pé. O povo era muito mal tratado aquele tempo.

Naquele dia estávamos na fila da consulta. Mais da metade da jornada havia sido cumprida. Eu e minha mãe estávamos com fome. Os ambulantes vendiam coxinha, esfirra e cachorro-quente. Não havia dinheiro. “Lambe com os olhos e come com a testa”, dizia minha mãe, querendo fazer graça com nossa pobreza. Eu olhava as pessoas que rodeavam os carrinhos com ressentimento. Porque eles podiam e eu não? Não conseguia entender as explicações que me ofereciam.

Então um médico (roupa toda branca e a máscara) sai da sala de atendimento e nos olha na fila. O enfermeiro vem atrás e o doutor reclama:

_ Porque toda essa gente ainda? E nos olhava qual fosse algum objeto, alguma coisa que ele na gostava.

_ Mas Doutor, são as consultas do dia, já estão agendadas, alguém precisa atender, e eu não sou médico! Defendia-se o enfermeiro com a voz esganiçada.

Os dois entraram para a sala de consultas discutindo nervosamente. Logo o enfermeiro voltou. Cortou a fila pela metade. Por sorte estávamos entre os cinco premiados da frente. Os demais teriam que voltar dia seguinte. O Doutor estava com a agenda cheia e estava com pressa. Amanhã outro médico os atenderia.

O pessoal saiu cabisbaixo. Alguns caminhavam com dificuldades, mas seguiam conformados, sem uma reclamação sequer. Aquilo doía em mim, embora não entendesse ainda por que.

Ao sermos atendidos, o médico estava de luvas e máscara, falava de longe, nos evitando. Quando precisou examinar minha garganta, o fez com a ponta dos dedos e muito rapidamente. Minha mãe fuzilava com os olhos, estava quase chorando de raiva. Segurou, engoliu sei lá o que. Sua boca se movimentava, mas não saia som. Recebeu o papel com os rabiscos que me encaminhava para a cirurgia. Abaixou os olhos, fez como quem cuidava de mim, não agradeceu e saiu me empurrando para fora dali. Eu não havia entendido nada.

Na rua, comigo em sua mão, ela encostou a cabeça no muro do hospital e chorou. Minha mãe chorava feio, quase ganindo como um cão. Depois enxugou os olhos, assuou o nariz, se abaixou à minha altura e disse gravemente, olhando o fundo de meus olhos:

_ Meu filho, aquele homem fez aquilo conosco porque estudou e por isso se acha melhor que nós. Pois você vai estudar, vai aprender e saber mais que aquele homem e mostrar a todos esses filhos da puta (raras vezes ouvi minha mãe dizer “palavrão”) que somos iguais e até melhores que eles! E saiu me levando pela mão, de queixo erguido, consciente do que havia dito a mim.

Até hoje tenho problemas com médicos. Preciso estar morrendo para procurá-los. Na prisão fiquei mais traumatizado ainda com os poucos médicos que me atenderam. É claro que sei que há bons médicos. Conheci alguns. Mas, depois de uma fase muito difícil, um dia me lembrei deste acontecimento. Recordei o fogo nos olhos de minha mãe. Voltei-me aos livros e nunca mais parei de estudar. Um dia chego onde ela queria.

                                     **

Luiz Mendes

19/06/2010.     

 

                                     

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 23.07.2010 | 11:07 | Luiz Mendes
divisão

POESIAS  FRESCAS

 

Honestidade

 

Tua honestidade é tua outra forma

De, silenciosamente,

Sem que ninguém saiba

Amar as pessoas.

Amar a partir de si

Por amor aos outros

Você não é desonesto com eles

Eles não merecem

Tua desonestidade

Isso é o mesmo que desamor.

                          **

 

Cansaço

 

Sem saber onde colocar meus passos

De queda em queda

Andei a afundar-me

Implacavelmente.

Nunca me dei trégua

Jamais tive descanso

De mim. 

                     **

 

Seguir

 

Foi difícil aprender

A seguir por mim mesmo

Minha tristeza era certa

Como uma religião qualquer

Em oblíquas madrugadas.

Rastejei por entre pedras

Fechei os olhos ao longe

Gerei estrelas e infernos

No rastro breve das horas moles

Mas não podia me permitir

A seguir o sol

Pela sua sombra.

                         **

 

Interpretação

 

A vida esta ali parada

E apalpava meu corpo

Com sua mão gelada.

As ruas eram leves

Para meus pés pesados

De medos e incertezas.

Espadas se entrechocavam

Em minhas entranhas

O gosto agridoce da realidade

Invadiu minha boca

Percebia agora, ser é estar além

Da interpretação.

                          **

 

Caminho

 

A vida cortando de luz a escuridão

Em seu excesso de ser

Torna-se destino

Depois que construímos

Caminho.

                          **

Luiz Mendes

23/07/2010.             

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 22.07.2010 | 09:07 | Luiz Mendes
divisão

                   APAIXONADAMENTE

 

                                                                                   Quando um escritor é profundo,

                                                                                  todas suas obras são confissões.

                                                                                                                Bernard Shaw     

As paixões, igual as manhãs, nunca são completas. Vivi tórridas paixões por várias mulheres e objetivos. Nada jamais me completou de verdade. Hoje sei que ninguém e nem projeto algum é suficiente para qualquer um de nós.

Acho que a única coisa completa que poderia nos apaixonar de verdade, sem nos frustrar, é a vida. Uma paixão pela vida inteira, como fizeram os grandes homens, como Martim Luther King, Gandhi, Albert Shweitzer ou, recuando no tempo, Francisco de Assis. Mas, coitados de nós, pequenos que somos. Não conseguimos essa plenitude de sentimentos e visão. Então a vida é muito para nós, tememos que nos engolfe, esganados que somos. Escolhemos um nicho e por ali nos fazemos. Já agora adaptados e conformados com a incompletude. O nos resta é essa angustiazinha fina a nos agulhar quando estamos sós.

O que fazer? Se estivéssemos conversando pessoalmente eu diria: e você vem perguntar para mim? Mal sei por meus pés em cima dos meus passos, como poderia responder? Sim, porque são mesmo infinitas as possibilidades de quem quer fazer. O problema é que alguma coisa é sempre pouco e o todo não conseguimos abarcar.

Posso dizer como tento lidar como isso. Não me prendo a nichos. Alguns querem me tornar especialista sobre prisão, dado ao meu passado. Outros, pensando em meu presente, escritor. Tem quem queira que eu seja palestrante ou até ator. Agora que estou entrando de sola no teatro (já tenho duas peças), invadindo roteiros e telas de cinema, provavelmente pensarão que esta deve ser a direção. E eu sei que não é, mas que é também.

A velocidade com que a vida vai tornando tudo obsoleto é fulminante. Parece que estamos em terreno líquido, em que não podemos fincar raízes. Por isso vou fazendo tudo o que aparece e me sinto competente. Claro, na maioria das vezes, chego inseguro, tateando. Assim que sinto que posso, então vou expandindo. Sigo curioso, voraz, como uma esponja a absorver tanto quanto possa.

É uma outra paixão. E asseguro que da mesma intensidade de todas as outras. Conhecer, admirar, se envolver e então, apaixonar. E o que estou vivendo é mais interessante ainda. Percebo que a cada nova paixão, as anteriores não diminuem. Continuo apaixonado por elas também. Ultimamente ando muito ligado em poesia, teatro e cinema. Tento me esforçar ao máximo e absorver tudo o que surja. Mas continuo amando escrever. Acho que serei um eterno aprendiz.  

Continuo fazendo palestras apaixonadamente. Quase sempre me emociono muito e o melhor; quem me ouve se emociona também. É quase uma cartase. Boa parte do tempo, tento conquistar, faço alegria com as mãos. Vendo meus livros arrojadamente. É esse o dinheiro que sustenta meu povo e a vida que me esforço por levar.

É sério e profundo porque a educação, alimentação e cuidado com pessoas dependem disso. Não é apaixonante saber que o fruto de sua luta vai possibilitar pessoas a crescerem e desenvolverem suas vidas? É mais que poético, e qualquer trabalhador, por mais humilde, pode afirmar isso de boca cheia.

Viver, muitas vezes, é revolver. Observar passos e escombros por nós deixados e reconstruir. O momento urge, mas não insta. Então cerro os punhos, travo os dentes e sigo em frente em busca de algo ou alguém que me comova o suficiente. No fundo, tudo o que quero é compreender, gostar e fazer durar.    

                                        **

Luiz Mendes

22/07/2010.

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (0) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 21.07.2010 | 11:07 | Luiz Mendes
divisão

 

 

Beleza

 

Beleza é algo a ser compartilhado?

Penso que na maioria das vezes sim, beleza é algo que todos devem ter acesso e participação. Beleza não tem a ver com moda. A moda adorna e realça ou até empana e obscurece. É preciso ter sempre em mente que vivemos tempos de relatividades e incertezas. Mesmo o que tem valor claro como a beleza, passa pela máquina resfolegante da modernidade.

Haveria uma beleza unanime? Beleza absoluta? O céu vestido de azul profundo, e as estrelas emitindo sua mensagem de luz ao universo. Uma linda mulher nua. É complicado porque há dias que eu queria que chovesse muito, tudo. Uma mulher vai dar preferência para pensar em um corpo masculino nu.

Poderíamos concordar que, além das emoções, cultura ou gênero, há beleza real em quase tudo? No céu recamado de estrelas; no céu negro cortado pelas labaredas de fogo dos relâmpagos; em uma bela mulher nua; e em um homem com sua musculatura plena. Mas, por exemplo, o padrão de beleza africano é diferente do europeu e americano. A mulher bonita na África é grande, de lábios grossos, nariz achatado e até farta de carnes. O padrão oriental também possui diferenças, por mais ocidentalizados estejam.

Somos nós, humanos, a medida do belo? Os animais têm diferentes percepções de beleza. Por exemplo, entre eles, em sua maioria, é o macho que tem a obrigação de ser belo. É o macho que se cuida para se “pavonear” para a fêmea. O próprio pavão (eis uma beleza que todos concordam: o pavão é lindo!), até a Ave do Paraíso é o macho que é a visão do paraíso (eis outra beleza a ser discutida: paraíso).

Tudo é muito confuso. Uma mulher ou um homem podem compartilhar a beleza que possuam? Porque o belo ai no caso ultrapassa a visão e se expressa em desejo. Compartilhar, no caso seria dar-se ao prazer de todos. Conheço mulheres cuja beleza física inexiste, tendo em vista as possibilidades femininas, mas que se fazem mais belas que as realmente são. Tornaram-se musas de vários poetas pela simpatia, cultura, graça, delicadeza e generosidade pessoal.

 De minha parte, quando vejo, sinto ou penso algo que desperte minha admiração pelo belo, depois de saborear, tenho necessidade imperativa de capturar em minha armadilha de palavras. Preciso (dá até gastura) mostrar aos outros. Conversar, escrever, especular sobre consequências e cogitar sobre a importância e o sentido.

Para mim, comunicar a beleza que vejo, penso ou sinto é obrigação imperiosa. Não consigo absorver só para mim, preciso trocar e compartilhar. Só assim o círculo se completa e consigo vivenciar de verdade o que admiro.

                                     **

Luiz Mendes

21/07/2010.

 

                  

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (0) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 20.07.2010 | 10:07 | Luiz Mendes
divisão

 

Aqui vão as quatro poesias que mais gosto de meu livro Poesias Existenciais a ser lançado em breve:

 

Crítica

 

Seja gentil, seja amigo

Deixe-me de fora

Não me divida

Nem parta em pedaços

Não perca tempo em me analisar

Já te digo antecipadamente

Não sou mesmo muito são

Tá na cara que sou carente

Inseguro e talvez não passe

De um velho louco de cabelos brancos

Rasgado pelos dentes da vida

Que você não quer

Abraçar.

                              **

 

Leitura

 

A quem nos apaixonamos

Não basta ver

Olhar.

Os braços parecem freitos

Para juntá-las ao peito

Aopertado.

Necessitamos sentir com a alma

Mãos, dedos, lábios

O corpo todo.

Depois vem a carência ansiosa

De saber tudo

Como vai a saúde, o bolso

E o coração.

A gente não sabe porque

Mas esse é fogo que precisa ser queimado

Para não arder

Quanto mais sabemos

Mais nos desesperamos por saber

Porque amar é saber.

                          **

 

Sanidade

 

Nessas horas tão extremas

As ultimas antes daquelas

Que não sabemos se virão

Implacáveis horas

De insônia noturna

Em que me viro pra lá

E para cá

A britar o vidro frágil

De minha sanidade.

                          **

 

Normalmente

 

Costuro esperanças

Reforçando a roupa usada

Da vida.

Decoro meu caminho

De erros acumulados

Encontro no pesadelo

Mais um motivo para dormir

Atravesso infernos

Quentes e frios

E vou vivendo

Normalmente.

                           **

Luiz Mendes

20/07/2010.

 

 

 

 

 

                       

Tags: poesias
divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (0) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 19.07.2010 | 10:07 | Luiz Mendes
divisão

Guru

 

O que é um Guru? Aquele asceta indiano vestido de sári com um sinal na testa? Talvez, para indianos e orientais. Para nós ocidentais criados sob cultura de outros valores, provavelmente nossos gurus sejam outros. Steve Jobs e Bill Gates, por exemplo. Aquela conversa de que o guru aparece quando o discípulo esta pronto, aqui não dá certo. Somos muitos a fim de saber. Nossos gurus são nossos mestres, professores e estão nas Universidades.  

Não exigimos santidade. Há quem considere Maluf seu guru. No Ocidente o que distingue o guru é o fato dele ser a pessoa mais importante na vida da gente. Uma mãe, um pai, pode ser guru de seu filho. E muitos o são de fato.

No meu caso, meu Guru chamava-se Henrique Moreno. Assaltante de bancos habilidoso, presidiário como eu e sensível poeta. Completamente despojado, eu o vi expor sua vida em defesa de pessoas várias vezes. A mim mesmo, salvou a vida, em determinado ocasião.

Eu o conheci na cela-forte. Estávamos ali por motivos graves. Cadeia brava, dura e cruel. A idéia é que era melhor a mãe do outro chorar que a minha. Através do encanamento da privada, nosso nauseabundo “telefone”, por cerca de quatro meses, conversamos.

Digo sempre que os livros me salvaram, mas não foram os livros. As pessoas que me trouxeram e me facilitaram a introdução ao livro que me salvaram. Foram as histórias dos livros que ele me contava que me despertaram para o livro. Mas eu o admirava e, por admirar, queria ser igual; gostar do que ele gostava. Ler e depois desenvolver uma necessidade imperiosa de aprender, foram as consequências. 

Foram cerca de dez anos de convivência. O que aprendi com ele e depois com os livros, é o que sou hoje. Nós, jovens condenados a dezenas de anos de prisão, nos reuníamos em volta dele. Eu tinha 21 anos e estava condenado a mais de um século de condenações (ele a mais de dois séculos). Isso nos unia. Todos estavam para sair. Nós estávamos para ficar.

Líamos e comentávamos os mesmos livros. Criamos capacidade de pensar, criticar e discutir a partir dos maiores pensadores da história. A luta era por sobrevivermos lúcidos, sensíveis e conscientes. Hoje isso fica claro para mim. Mas só Henrique era consciente disso; enxergava nosso vir a ser. Nos sorria seu sorriso enigmático e estimulava a sempre mais.  

O afeto, a generosidade e o cuidado que recebi desse amigo faz dele a pessoa mais importante de minha vida. Isso o torna meu guru. Uma pena que nem ele e muito menos os outros tiveram paciência de me esperar. Henrique saiu foragido. Foi morto em 23/10/1996, segundo o jornal, em um tiroteio com a polícia no interior paulista.

Imagino que não haverá paz ao seu coração como nunca houve ao meu. Mas um dia, não sei como,  companheiro, haveremos de nos reencontraremos.

                                     **

Luiz Mendes

24/05/2010.

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (0) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 16.07.2010 | 11:07 | Luiz Mendes
divisão

 

E o Dunga pode ser o culpado...

 

Ontem, Graciela, grande amiga, comentando o caso Bruno, afirmou que parecia demais com tragédia grega para ser verídica essa história. Mesmo as partes macabras (“desossar” foi demais), tem essa coisa da mitologia grega, algo como o abutre comendo o fígado do deus rebelde a Zeus. Para ela não era verossímil e parecia coisa criada pela teatralidade humana.

Fiquei pensando naquilo. Algumas coisas são realmente estranhas. Se os restos de Elisa seriam concretados, porque dar parte aos cães? E, alguém viu os cães na TV? Quem conhece de cães percebe que eram cães mansos e pequenos. Estavam assustados; dava pena. Aqueles cãezinhos comendo partes de uma pessoa? Difícil de acreditar. Pareciam cães criados com carinho e ração. E, não seria fácil descobrir um lugar recém concretado?

E a garota, indo e vindo pelas mãos dos “seqüestradores”. Estaria confiando? A moça não era boba, ficou claro nas entrelinhas das reportagens. E pior: era uma mãe amamentando e com seu bebê recém nascido no colo. Qual mãe tendo sua cria ameaçada, além de sua própria vida, seria conduzida assim pela mão como contam. E a empregada do sítio, cadê, sumiu?

E aquele Delegado tropeçando nas palavras, parecendo tão inábil e provinciano? Aquela confusão toda de mandatos de prisão de dois Estados, a disputa por competência e o vai não vai para Minas... Isso já é coisa de comédia grega misturada com polícia brasileira.

Ao fim e ao cabo, começo a pensar no envolvimento do Dunga nisso tudo. Aquele Delegado devia intimá-lo para depor. Já pensou se ele convoca o Bruno para a Seleção como foi cogitado? Ele estaria longe, muito longe. E, dando asas à imaginação, já pensou se o Bruno pega aqueles “frangos” que o Julio Cezar tomou (aquele cruzamento na área até eu pegaria) no jogo contra a Holanda? A história podia ser outra. Poderíamos ser Campeões do Mundo novamente. O povo todo ia ficar muito feliz, haveria muita comemoração e festas. O Bruno seria consagrado Herói da Copa. Ganharia muito dinheiro, iria para o Milan ou Barcelona ganhar milhões de dólares. Nem ligaria para a porcaria de uma pensão alimentícia. 

É, só pode ser do Dunga mesmo...

                                      **

Luiz Mendes

16/07/2010.

 

 

 

                                                                                                                      

divisão
  • Avaliar:(+ 2)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 14.07.2010 | 22:07 | Luiz Mendes
divisão

 

O coração das pessoas elege dinheiro como solução para todos os problemas. E não estão erradas, dada a cultura monetária que predomina no mundo moderno. Liberdade, pelos padrões sociais atuais, é mesmo dinheiro no bolso. Parece que estamos vendo tudo isso acontecer e nada fazemos. Mas fazer o que, exatamente? Votar, talvez? Mas já fizemos isso e até agora não deu certo...

 

Acho que poucos de nós estamos preparados para ter muito dinheiro. Pouco dinheiro, nem precisa preparo. A maioria nasceu assim. E ai, quando possuímos algum talento especial ou damos sorte, temos a chance de conseguir o tão sonhado valor monetário. Então, o que acontece? Queremos extrair toda alegria e felicidade que o dinheiro possa carrear. E quais as fontes imediatas para satisfazer tais objetivos? Carros importados; casa de praia; sítio no mato; e... Mas é claro; o sexo oposto! Talvez este seja o maior dos anseios. Particularmente se o afortunado for homem. A educação machista o levará a procurar entre as mais belas. E vai derrubando e colecionando com o mesmo empenho de um serial killer.

 

E ai aparecem amigos, parentes e toda essa gama de pessoas que, muito justamente, também quer se dar bem. E o afortunado agora é alvo. Logo surgem ladrões, oportunistas, vigaristas, prostitutas... E, quem não aprendeu a viver com o capital, não vai saber lidar com toda essa gente esperta. É onde ocorrem os escândalos como esse recente. Não fora o acusado goleiro do Flamengo, não houvesse a parte dos cães e concretar os ossos, e seria apenas mais um caso passional.

 

Tudo indica que Bruno é um bom sujeito. Ajudava familiares e amigos e as pessoas gostavam dele ou de sua generosidade. Vejam quantas pessoas envolvidas na morte de Elisa (que não era santa, segundo as informações). São dez ou mais pessoas. Até a esposa dele esta envolvida. Hoje a polícia esta tomando depoimento de outra amante do acusado que esteve presente. E todos procuram tira-lo da jogada.

 

Se nos guiarmos pelos depoimentos (que não se sabe se verdadeiros), o Bruno é o menos culpado. Fica parecendo que o grupo de familiares e amigos decidiu acabar com a moça para livrá-lo daquele problema. Não houve a menor consideração com a garota e muito menos com a criança. Eles eram apenas o problema. Para conhecedores das maldades possíveis, ou ele é muito inocente ou esperto demais. Isso tudo cheira a manipulação e fraude.

 

Bruno parece aturdido nas reportagens. Como não acreditasse que aquilo estivesse acontecendo com ele. Exatamente com ele. Talvez se julgasse blindado pela fama e pela grana. Talvez pensasse que a torcida do Flamengo viesse socorrê-lo. Aterrizou do sonho de ser por ter para a realidade de mesmo tendo não ser por não saber lidar.

 

Luiz Mendes

14/07/2010

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 13.07.2010 | 17:07 | Luiz Mendes
divisão

Às vezes não entro em depressão profunda porque aprendi a lidar com as frustrações da vida para sobreviver. Viver comunidade é tarefa desgastante. Particularmente em cidade tão grande quanto São Paulo. São milhares de problemas e não há como se envolver em todos. As soluções são complexas, dada a proximidade extrema em que convivemos. Os espaços, em todos os sentidos, ficaram reduzidos e disputadíssimos. Tudo afeta todo mundo e não há como evitar que nos afete.

 

As pessoas são eleitas a vereadores e prefeitos para encontrarem soluções. E acabam tomando atitudes que reprovamos e nada podemos fazer. Por exemplo, não é nem um pouco agradável ver aquele grupo desordenado de vendedores ambulantes, moradores de ruas e prostitutas em alguns pontos de nossa cidade. Para mim não é legal porque me preocupo com essas pessoas. Acredito que elas são mais importantes. E, tirá-los à força das ruas não significa que a prefeitura vá tornar e manter nossas praças e ruas limpas, arborizadas e atraentes ao convívio humano.

 

O vendedor ambulante, na maioria é o desempregado que desistiu do emprego inexistente e foi atrás de trabalho. Em geral têm família, filhos para criar e cuidar. Não podem se dar ao luxo de ficar desempregados e sem trabalho também. Moradores de rua são, em sua maior parte, seres humanos em crise extrema. Com a auto-estima destroçada, seguem apagados como se não existissem. Mas são iguais a qualquer um de nós. Aquele de nós que ainda não pensou em largar tudo e mandar tudo para aquele lugar, nem vivo esta. Em um estalo são capazes de reassumir a luta, encarar a pressão e ressurgir vigorosamente. É só existir estímulos e motivações suficientes. Os usuários de drogas podem ser enquadrados nesse grupo. E ainda temos os filhos da cidade, nossos meninos de rua. Fui um deles e sei sobre qual miséria e falta de cuidados constroem suas existências de ferro.

 

Falar daquelas moças (às vezes cansadas senhoras) que ganham a vida nas calçadas do centro da cidade, é algo muito complicado. Caso forem para as boates, serão exploradas pelos donos. Só lhes resta a rua. Procurei saber, tempos atrás, como sobreviviam em tempos modernos. Os jovens se resolvem entre eles, não são mais seus fregueses habituais. Os que as procuram agora são os mais velhos, os que mulher alguma quer e os inibidos em excesso.  Quando conseguem três programas no dia encerram o expediente satisfeitas.

 

Nossa cidade construiu sua importância política e riqueza com o trabalho de migrantes e emigrantes. Todos em busca de uma vida melhor na cidade grande. Por conta disso, deveríamos ser o símbolo do respeito à diversidade e à tolerância. E não tratar as questões sociais como caso de polícia, por mais isso faça parte da história do Brasil.

 

O Prefeito quer “limpar” o centro de São Paulo. Houve até acordo de colaboração assinados com a polícia militar e a GCM. O projeto era para tirar primeiro os “marreteiros”, depois os mendigos, drogados e agora chega são às prostitutas.

 

Queremos a cidade limpa, mas não a custo de sofrimento humano. Os vendedores ambulantes poderiam conseguir emprego até na prefeitura. Os mendigos e drogados receber tratamento médico e social a curto e médio prazo. Ninguém me convence que eles preferem levar aquela vida miserável que encaram todos os dias. As profissionais do sexo só podem ofender a anacrônicos puritanos (que de vez em quando...) e talvez homossexuais enrustidos. Creio que é possível oferecer alternativas pelo menos para as mais velhas que já não fazem nem para o café.

 

Há uma Lei Orgânica de Assistência Social no município. Isso de higienização da cidade é absolutamente inaceitável. Fomos tão generosos com todos que por aqui aportaram, porque não com aqueles que aqui já estão e carecem tanto de nós? Garanto que não será construindo rampas anti-mendigos, praças sem bancos (nossos velhos é que sofrem) e banheiros ou colocando a polícia militar para correr atrás das mulheres que conseguiremos humanizar essa cidade.

 

                                **

Luiz Mendes

13/07/2010.

 

 

divisão
  • Avaliar:(0)   avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (0) comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
CATEGORIAS

 


ARQUIVO
Páginas: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9  próximo »
TAGS