Revista Trip

 
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Postado em 02.09.2010 | 17:09 | Luiz Mendes
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Problemas

 

Os problemas que ocorrem na existência parecem que não acontecem para serem solucionados, dada a continuidade de sua fluência. Sempre tivemos problemas. Quando não os temos, nos sentimos vazios e nos problematizamos.

 

Parece que nos resta apenas três alternativas diante dos problemas. Estar em busca de resolver problemas existentes; estar lamentando ou falando de problemas vividos; ou ainda estar em busca de algum problema. Dá até para concluir que não vivemos sem problemas. Talvez até faça parte da condição humana e a gente nem esta sabendo.

 

Crescemos, nos tornamos gigantes ou somos sumariamente abatidos pelos problemas. Às vezes eles chegam a nos soterrar, cortar o ar que respiramos.  De verdade, acho que os problemas existem unicamente para gerar tensão. Tensão que comunica o dinamismo da vida a essa monotonia desagregadora que se transforma nossa rotina existencial.

 

                         ***

Luiz Mendes

01/09/2010.

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Postado em 31.08.2010 | 16:08 | Luiz Mendes
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O  Maestro

 

Há seis meses atrás era só barulho insuportável. Todo dia, cerca de oito horas da manhã, exatamente na hora em que saio com Chicão, meu cão, lá estavam eles a doer no ouvido da gente. São as crianças na escola. Meus filhos estudaram lá. Todo ano é formada uma banda com alunos da 3ª série que ensaia quase todo dia, o ano todo.

A molecada nunca teve um instrumento musical nas mãos, então é festa nos primeiros meses. Quem mora perto como eu, não é nada agradável acordar com bumbos, zabumbas, surdos e pratos batendo pra fazer farra. Para as crianças é prato cheio, fazem uma zoada... Claro, por aqui a gente faz abstração e finge que não escuta. Afinal, são os nossos filhos. As mães dão graças a Deus por estarem fazendo bagunça por lá e não em casa, como é de costume.

Mas já se passaram mais de 6 meses e hoje, ao passar perto da quadra com o cão, ouvi um som muito legal. Fui ver e era a banda da molecada funcionando. As caixas estraçalhavam com vigor, os surdos avançam e marcam o som em estrondos e de repente um pistão entra dando harmonia ao ritmo. Os pratos quase que cintilam ao retinir no ouvido da gente. Os meninos ao fundo com os surdos e bumbos maiores e vai descendo até a arraia miúda nos caixas. Na frente, um menino maior com um tamborzinho, vai coordenando tudo com suas batidas secas.

Concomitantemente, uma moça ensaia grupo de meninas que marcham na frente. Ao comando do tamborzinho, toda a bamba e a fanfarra se deslocam evoluindo em volta da quadra. É emocionante! São criancinhas e fazem aquilo com uma seriedade enorme. Não erram e quando erram, ficam bravas com elas mesmas e vão novamente. Meu cachorro quase me arrastava, queria sair fora, andar. Para ele aquilo era barulho indesejável. Fui obrigado a sair andando, mas feliz, mais uma vez.

Todo ano é assim. Eu não acredito que o maestro vai conseguir que aquela molecada produza um som legal, e ele sempre consegue. Quando meu filho mais novo passou pela terceira série, fui assistir a evolução no Estádio, no centro de Embú das Artes. É um rapaz moreno com aparência bem comum e que se veste humildemente. A criançada o adora e respeita inteiramente. Quando a banda se desfaz no dia da apresentação, eles correm pra cima do maestro e o tomam de assalto. Caem todos no chão abraçados ao rapaz. É o modo de manifestarem o amor e o agradecimento que sentem por ele. É uma bagunça imensa de criança em farda de banda, chorando, rindo, misturadas com instrumentos, maestro...

Nessa vez que fui, observei que ao final, o rapaz saiu andando, limpando lágrimas que escorriam pela rua afora. Ninguém dirá, mas para mim ali seguia um gênio.

                                   **

Luiz Mendes

31/08/2010.

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Postado em 30.08.2010 | 11:08 | Luiz Mendes
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Livros Importantes

 

Como sabem que sou leitor compulsivo e há décadas, sempre me perguntam sobre livros e escritores que foram importantes para mim. Essa é questão que de tão complexa fica difícil responder. Gosto de conversar sobre livros, mas com tempo, em ambiente favorável. É raro encontrar interlocutor entusiasta. Quando encontro, é um prazer inenarrável. Saio do encontro iluminado e farto.

Há livros que li várias vezes. “Escuta Zé Ninguém” do Reich é um livro desses. O livro me arrasa, joga de quatro no chão de minhas fraquezas e limites. Sinto-me um perfeito Zé Ninguém e supermotivado a revolucionar, mudar tudo. “Os Mandarins” de Simone de Beauvoir é um porre. Sou apaixonado pela história de duas pessoas que viveram vidas exuberantes: Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. E nesse livro Simone coloca como foi após a 2ª Guerra Mundial. Intelectuais franceses a reconstruir a cultura francesa. É quando Sartre publica a célebre revista “Les Temps Modernes” que vai ser palco dos grandes debates da época. O livro é fantástico, Simone é minha escritora favorita. Claro que ao lado de Clarisse Lispector, de quem sou fã apaixonado.

O livro “Um Homem” da jornalista Oriana Fallathi foi um dos que mais me impressionou. É a história de Alekos Panagulis, revolucionário grego. Pulsante, o livro narra 5 anos de tortura que esse homem sofreu, sem jamais se dobrar. “O Profeta” do Gibran Calil me instruiu muito. “O Pequeno Príncipe” do Saint Exupery é um tratado de amizade. Li umas 5 vezes, até no original. É lindo, poético e verdadeiro. Todos os diálogos de Platão são livros maravilhosos. “A Caminho da Luz” do Chico Xavier também é um livro iluminado.

Romance, o ultimo que mais me impressionou foi “A Carta Esférica” de Arturo Peres-Reverte. O autor espanhol escreve como um poeta. Seu personagem feminino é quase palpável de tão real. Caso fique falando de livros, cada um deles vai provocar uma resenha de mim, e são tantos... Agora escritores, o que mais leio ultimamente é Bukowiski. Impressionante; esse velho bêbado brinca com as palavras. Gosto muito de Norman Mailer. “A Canção do Carrasco” dele que me emocionou demais. Aprecio John dos Passos, James Michener (“Os Rebeldes” é fenomenal!) e Henry Miller (este muito louco, sua trilogia é qualquer coisa de reveladora).

Escritor brasileiro para mim sempre veio Erico Veríssimo em primeiro lugar. Depois vem João Ubaldo que é magnífico e Luiz Fernando Veríssimo que, sem ficar nada a dever ao pai, é um grande escritor. Tem Fernando Bonassi que não é por ser meu amigo, mas é muito bom. Douglas Rufato e principalmente Marcelino Freire, esse eu “pago um pau”, o cara escreve bem demais. Dos estilos, é o que mais aprecio. Conservo a ilusão de que escrevo parecido, embora do meu jeito já que faço assim antes de conhecê-lo.

Conversa sobre livro e escritores nunca se esgotará, pois continuo lendo, e de 3 a 4 livros de uma vez. No momento leio “Cartas a Nelson Algren” de Simone de Beauvoir; “Aritmética” de Fernanda Yong; “Ao vivo do Corredor da Morte”, de Abu-Jamal; e mais dois de poesia. De todos hábitos adquiridos ao longo da vida, este é o que pratico com maior convicção e que mais me deu retorno.

                                 **

Luiz Mendes

30/08/2010.  

 

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Postado em 27.08.2010 | 11:08 | Luiz Mendes
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Transformação

 

Parece que tudo quer se transformar em outra coisa maior sem deixar de ser a si mesmo.

O barro transformado em tijolo; a areia, a pedra e o cimento reciclados em blocos de concreto, desejam se tornar em grandes edificações.

A flor anseia por asas de insetos para ser fecundada e se tornar semente. Esta, por sua vez, desespera-se por esparramar-se ao chão, criar raízes e receber a chuva para fazer-se planta e a planta para produzir flores...

O frágil carvão busca a rocha mais comprimida para ser compactado por séculos e transformar-se em diamante.

O espermatozóide disputa com outros em corrida alucinante para produzir o feto. O feto gruda com todas suas forças ao útero materno para se desenvolver e nascer bebê. O Nenê assimila o mundo rapidamente para ser criança. A criança em adolescente, jovem, adulto e velho. O velho se separa desta vida para o mistério da morte, a experiência mais radical possível.

Na edificação lá esta o tijolo, a areia e a pedra. Na planta estão as flores e o pólen. No diamante e nas pedras preciosas, a rocha e a pressão compactante. No velho estão todas suas idades e experiências. Tudo se transforma sem deixar de ser a si mesmo.

                                     **

Luiz Mendes

27/08/2010.

 

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Postado em 25.08.2010 | 17:08 | Luiz Mendes
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0  Sentido  da  Vida

 

  Nascemos inteiramente desinformados. Principalmente sobre o que fazer para que a existência nos seja satisfatória. Até a pouco tempo, estávamos presos a um sistema. Determinados ao nosso papel na vida, do nascimento à morte. Não havia preocupação de satisfação pessoal em viver. Havia o dever. A promessa era de que se o cumpríssemos, encontraríamos o prazer da vida.

Hoje temos a nossa consciência expandida e nossas liberdades. Mas, não sabemos bem o que fazer de nossas possibilidades. Fazemos o que os outros fazem. Quem não se conforma, e exige significados, vive a beira do abismo existencial. Nietzsche talvez possa ser considerado, dos humanos, o que mais tangenciou abismos.

  Existe uma razão de estarmos vivos? E seria preciso que existisse? Essa é abordagem desce aos alicerces da realidade humana. Nossa existência carece dessa resposta. Todos os outros significados; aquele dos instantes; das circunstâncias; trabalho; escola; comunidade, família e do indivíduo estão contidos nessa resposta. Ela permeia do mais simples ao mais complexo da vida humana. A idéia de Deus é exemplo mais claro do que estou dizendo. Partindo da crença em Deus, ocorre encadeamento de idéias que chega ao que fazemos com nossos órgãos genitais.

Não somos filósofos para praticar tais malabarismo mentais. O que precisamos é tornar nossa existência satisfatória agora, agora. Os significados que agregam valores atualmente, são os de mercado. O marketing promove valores de acordo com lucros decorrentes.

Para a realização humana, é preciso ter o carro do ano; a casa dos sonhos; esposa (o) de acordo com padrões da moda; filhos em colégios caros; amante de cabelos platinados; casa de campo, de praia. O homem consciente dessa manipulação tenta outros valores. Despreza a banalidade de tais estímulos. O significado da vida parece não estar nas coisas. Criamos mecanismos de valoração que não nos satisfaz. Quanto mais temos, mais carecemos. Parece que ter é pouco. 

  Penso que cada momento compõe uma circunstância. As circunstâncias exigem decisão. No dia todo talvez não seja encontrado significado. Mas para cada unidade desse dia, existe seu motivo de ser. No mínimo compõem o dia. Os significados são ímpares. Parece também que há um significado inerente, adormecido em cada circunstância. A nossa consciência o fareja como um cão fareja a presa. É a principal tarefa da existência, já que sem precedentes.

  Os significados estão presentes no objeto, ou é a consciência que os cria? Desde o inicio da filosofia essa discussão permanece. É a idéia do objeto que existe, ou o objeto em si? A finalidade não é aprofundar. A proposta é mais linear. As situações existenciais estão grávidas de significado. A consciência os descobre de acordo com a definição de cada um. Um religioso entenderia significado diferente de um materialista. Em suma: o objeto do significado está nas situações existenciais, mas há uma interação no ato de descobrir.

  Há, em nós, uma insatisfação relacionada à vida. Nem sempre conseguimos definir o motivo de vivê-la. Surge então vazio existencial que nos leva à angústia. Essa insatisfação, essa angústia, são módulos propulsores para ultrapassagens. É o desespero existencial a nos triturar. É assim que procuramos adquirir novos conhecimentos, criamos ou inventamos uma vida nova. E, num processo semelhante à tese darwiniana das mutações, somente o for melhor se estabelece.

  Na verdade, se nascemos desinformados, cabe a nós nos informar. A cada novo dia, descobrir novas idéias e buscar saber de é feito o mundo que nos cercam. O vazio e a angústia só existem porque são infinitas nossas possibilidades.

  A busca pela motivação da vida é incondicional e ocorre sob quaisquer condições ou circunstâncias.

                                  **

Luiz Mendes

23/08/2010.

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Postado em 24.08.2010 | 11:08 | Luiz Mendes
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Felicidade

             

O que todos queremos? O que todos buscamos? O carro do ano? A casa própria; a namorada linda, gostosa e inteligente; comprar no shopping a roupa de grife famosa; computador com todos os gigas possíveis; televisão de parede inteira; ou o que?

Tudo isso e muito mais, não é mesmo? Talvez tudo o que de bom exista. Nada basta. Mas será que é isso mesmo o que precisamos? Não estamos sendo enganados? Porque coisas exigem coisas. O carro do ano quer o carro importado. A simples casa própria pede o duplex. A namorada adequada levará à amante deliciosa. Nada nos será suficiente. Estamos sendo condicionados a nos tornarmos seres adquirentes. Há quem promova essa angústia e ansiedade humana para aferir lucros.

  O que queremos de verdade? Amor? Sim, queremos amor. Mas amor somente não nos basta. A nossa história nos desmascara: ainda é pouco. Continuamos procurando mesmo tendo vários amores. Liberdade? Somos uma liberdade a se realizar. Toda liberdade que conquistarmos será pouco. Ainda seremos transgressores em busca de mais e mais. Se der o pé, vamos querer o braço, do braço iremos pescoço e deste ao corpo todo. Somos matadores. O Céu e a Terra podem morrer juntos que ficaremos para o enterro.

  O que procuramos? Imagino que seja satisfação de viver e realização de nossos objetivos. Temos um nome para isso: Felicidade. O problema é que vivemos em um mundo de relatividades. Nada que sempre dure. Não há patamares, a fluência é a constante.

Quando às coisas, há vários caminhos. Adaptar nossa vontade à nossa realidade. Aceitar nossos limites e exigir de nós disciplina compatível às possibilidades que possuímos. Querer apenas o que podemos. Por ai se poderá construir harmonia e paz, que dizem, trás felicidade.

  Outra opção é enfrentar a realidade e lutar para submetê-la às nossas necessidades. Transformar para encontrar satisfação na existência. Construir um mundo melhor para garantir a felicidade.  

  O maçarico da vida nos mostra quão avassaladora é a nossa experiência pessoal de sermos o que somos. Vivemos esse tumulto, essa sede com fome. Entre o que somos e o que queremos ser, navegam rios e mares. Todos querem ser felizes. Mas navegamos, ou somos forcejados a navegar, à margem e contra o vento. Nada nos é muito favorável.

                                     **

Luiz Mendes

24/08/2010.

 

             

                 

 

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Postado em 21.08.2010 | 10:08 | Luiz Mendes
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Ouvir

 

Tentava me ouvir por dentro

Sabendo que nada escutaria

Que sou impenetrável

E que estou perdido nessa longa loucura

De ser eu mesmo

E que não haveria salvação para isso

Ouvia sem ouvir.

                       **

 

Liberdade

 

Uso a liberdade

Apenas vagamente

Como quem se move

Dentro de um sonho.

                       **

 

Vida

 

Fera movida a vapor

Com sua boca bruta aberta

Como planta carnívora

Faz o inferno rentear o chão

Enquanto a lua se perde vazia

Semeando pedras do alto

De sua torre fria.

                          **

 

Perdido

 

Olhava à frente

Remexendo passados

Em busca de futuros

Quando visão amarela e mais que viva

De sensíveis florezinhas alegres ao vento

Roubou de meus olhos a atenção.

Quase caindo ao chão

Algumas flores menores ainda

Cintilavam minúsculas gotículas

Transparentes de orvalho.

Haviam sido atingidas

Por agudo filete de raio solar

E prismando as cores do arco-íris

Tremelicavam cambiando cores brilhantes

Como que soltas no ar.

De repente toda aquela delicadeza

Parecia tão necessária à existência...

Estivera ocupado com tudo lá atrás

E tão perdido olhando para frente

Que não percebia a vida vazando 

Pelos lados.

                               **

Luiz Mendes

21/08/2010.

 

 

 

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Postado em 19.08.2010 | 00:08 | Luiz Mendes
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Casa das Rosas

Sábado passado eu e Antonio Cícero, esse magnífico poeta, ensaísta e compositor, fomos convidados para Sarau poético e musical na Casa das Rosas da Avenida Paulista. É o primeiro Sarau que participo. Estava tranqüilo, mas temia não agradar com minha fala e poesia tosca. Aquela Casa me encantou desde minha infância. É um mito de beleza para mim. Havia várias casas como aquela por ali, mas seu jardim era tão fabuloso que acabou por justificar fosse a única preservada.

 

Tenho escrito essas poesias no Blog, mas jamais dei muita importância. Quando a Professora Denise Carrascosa deu a idéia de montar um livro com aquelas poesias, me espantei. Mas ao passar os olhos pelos textos, percebi o valor que ela dava a eles. Isso me incentivou. Procurei em meus cadernos de anotações pedaços de poesias. Havia muita coisa. Ao final eu tinha um livro de fato com 160 textos. Não publiquei, falta editora interessada. Mas já rendeu convite para esse Sarau.

 

Sentamos à frente de microfones e o apresentador iniciou uma série de perguntas. O poeta, com aquele modo de parecer fora de cena, desfocado, falou baixo e com cuidado. Na minha vez já comecei brincando com a platéia (casa cheia, tinha até gente de pé) e respondendo com energia e força. Acho que ficou legal por conta disso também: um intimista, coloquial e outro meio que rasgando, botando a voz para fora.

 

Depois António Cícero disse três de suas poesias. Muita delicadeza na forma e profundidade no conteúdo do que dizia. Na minha vez, ciente que poeta ali era ele, disse as minhas três poesias com todo ênfase que fui capaz. Lógico, para compensar. Não dava nem para pensar em competir. Depois declamei uma dele e ele uma minha. Minha poesia ficou linda na voz do poeta, adorei!

 

O grupo musical “Memórias de um Caramujo”, com um repertório todo autoral, mesclou influência em arranjos cheios de poesia e muito humor. Ainda dissemos poesias ao som do grupo musical e logo o sarau foi aberto aos poetas presentes. Apareceu cada poesia linda... Umas tenebrosas que falavam em sangue; outras doces e delicadas que falavam de flores e amores.   

 

Ganhei um monte de livros de poesias. É costume nos saraus os poetas se presentearem com seus livros. Eu não sabia, não havia levado nada. O aplauso foi de pé e por vários minutos. Senti que era sincero, vinha direto ao coração.

 

Foi então que pela primeira vez em minha vida senti que estava fazendo arte. Houve pessoas afirmando que fomos a melhor dupla de poetas que se apresentou na Casa. Lógico, não acreditei, mas senti que falavam do coração. O povo saiu de lá mais leve. Rimos, brincamos e quase choramos juntos. Havíamos causado emoção e produzimos um bom espetáculo. Eu estava feliz!

 

                                    **

Luiz Mendes

19/08/2010.

 

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Postado em 18.08.2010 | 11:08 | Luiz Mendes
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Perder

 

Viver é perder. É vivendo que se vai perdendo. Perdemos os sonhos, as ilusões e até os medos. Perdemos nossos avôs, nossos pais e às vezes nossos filhos. Vivemos perdendo vida afora. Nossa cultura, ao contrário, nos ensina a ganhar, se queremos ter sucesso. Toda glória é só para quem ganha. O segundo lugar é para deixar claro quem perdeu. O problema é que são poucos primeiros lugares, não cabemos todos neles. O que resta é frustração para a maioria.

Na pegada que vai a vida, a gente devia aprender a perder e não a ganhar. Assim como não temos cursos que nos ensine a sofrer, também não sabemos de que maneira ensinar a perder. Sofrer e perder figura até como sinônimos do tanto que se associam na vida da gente.

Perder sem sofrer é uma arte. As culturas orientais já têm uma milenar caminhada nesse sentido. O desapego dá até para concluir com os budistas, é a única saída para quem não quer sofrer. Mas sofrer esta na cultura judaico-cristã como meio de vencer o pecado e atingir a salvação. Os cilícios e os aparelhos de tortura da idade média demonstram isso claramente.

No Oriente a Kundaline é o caminho da realização através da prática sexual. Aqui no Ocidente a abstinência sexual voluntária também tem esse mesmo sentido. São muitos caminhos e alguns que se cruzam e até antagonizam.

Dizem que sou despojado, talvez. Perdi muito, quase tudo. Conservei a vida por teimosia, então:

 

Perder

 

Gosto de me perder

Por algum tempo

Antes de voltar

Para o perigo que consisto.

Pesado de chumbo

Vivo a cair sem nunca

Chegar ao fundo.

Sinto que me ajudaria mais

Se estivesse mais distante

De mim.

Amigo e inimigo

Tolo e estranho de mim mesmo

Vago sob a superfície

Querendo saber o que acontece

Sem saber o que acontece

De fato.

                         

Talvez devêssemos fazer exercícios de perder. Perder algo propositalmente todos os dias. Uma caneta, um livro, até chegarmos a uma carteira, documentos, dinheiro... Devíamos nos exercitar, caso fosse possível, também em perder pessoas. Começar por aquelas mais distantes até chegar nas mais queridas. Parece que essa parte do curso torna-se inviável. A não ser que nós nos perdêssemos delas. Mas então, seríamos misantropos. Daqueles yoguins ou sadus que vão viver lá no Himaláia. Ou perder apenas o apego, a possessividade e o domínio, talvez. Mas ai é mais difícil, quase impossível para nós, herdeiros da civilização ocidental. 

                                                    **

Luiz Mendes

18/08/2010. 

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Postado em 17.08.2010 | 10:08 | Luiz Mendes
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EXTASE

 

  Eles estavam sob cobertores, em uma cama de concreto na prisão. Engoliam gritos no coração. Uma tepidez gostosa subia do calorzinho que geravam. No xadrez, vento frio dissolvia disposições. Inverno cinzento desabrigava tudo. Eles se acarinhavam docemente. Uma ternura branda, quase um choro silencioso, os envolvia. Tudo era paz e de olhos fechados, escondidos do mundo, deliciavam-se de plenitude. Havia totalidade em seus gestos lassos e preguiçosos. Flutuavam na intimidade, essa peça íntima da verdade.

  O amor era energia e os abrangia. Encerrava-os em auréola que os santificava. Estavam vivos de todas as mortes, em sublime instante existencial. Haviam acabado de se darem um ao outro. Uma lua cheia de olhos escuros os protegia. Fora um amor torrencial, ao tempo em que paciente, como somente os anos de convivência podem oferecer. O prazer fora imenso, caudaloso, de longos gritos roucos e arfares sôfregos. A vida lhes parecera breve, na vastidão da alma que se perdiam.

  Eles haviam se preocupado em dar o máximo possível ao parceiro. Tudo era amplidão, doação e entrega absoluta. Sentiam-se repletos, vastos como o mar a quebrar-se em ondinhas borbulhantes na areia da praia...

  O pensamento recuava. Tudo era prazer que se alongava na largueza da cumplicidade. As pernas se perdiam, enroscadas na imobilidade dos gestos mudos. Languidamente, esfregavam-se, buscando no atrito, a eternidade do momento. As mãos desenhavam círculos contrapelos, o afago era apenas semiconsciente. Carícias instintivas abriam brechas profundas no vão dos cobertores.

  Então ele ouviu um som que articulava uma espécie longínqua de gemido, quase uma prece:

  -Ai, ai, ai...

  -O que foi, meu bem? Perguntou achando estranho.  

  -Nada, amor. Apenas acompanho o som de teus gemidos; é gostoso.

  Só então ele foi entender que estivera gemendo de prazer, de puro êxtase, mas que não havia percebido.

                                             **

         Luiz Mendes

          

 

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