Revista Trip

 
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Postado em 12.08.2010 | 13:08 | Alê Youssef
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Segunda Feira - 16/08 às 20h00

Debate – “Casamento Gay e Adoção” no Studio SP

Debatedores:

–  André Fischer é jornalista e empresário, diretor do Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual, editor do portal MixBrasil e da revista Junior, criador da sigla GLS.

–  Sylvia Maria Mendonça do Amaral é advogada especialista em Direito de Família e Sucessões, autora do Manual Prático Dos Direitos De Homossexuais e Transexuais.

–  Nina Lopes é lésbica ativista, DJ e editora do site Dykerama.


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Postado em 08.08.2010 | 11:08 | Alê Youssef
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Como a arte, moda, música, publicidade e todas as indústrias criativas podem conduzir um novo formato de desenvolvimento econômico e inclusão social.

 

11/08 às 19h00

Debate – “Economia Criativa” no Studio SP

Debatedores:

Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, do  Creative Commons Brasil e fundador do site Overmundo.

Baixo Ribeiro: Galeria Choque Cultural.

Camilo Rocha: DJ, Produtor e Jornalista.

Pablo Capilé: Circuito Fora do Eixo e ABRAFIN.

Pena Schimidt: Auditório do Ibirapuera.

 

Veja algumas das ideias e propostas da minha campanha que serão debatidas:

- PIB DA CRIATIVIDADE
Uma boa parte do Pib brasileiro é gerado pelas áreas criativas (arte, moda, música, entretenimento, noite, publicidade, entre outras). Vamos trabalhar junto ao IBGE e Ministérios da Cultura, Fazenda e Desenvolvimento para quantificar e fomentar estas forças econômicas.

- FOMENTO À ARTE CONTEPORÂNEA
São Paulo ferve com novos projetos artísticos na musica, artes plásticas, teatro, cinema e dança. Vamos criar uma lei que garanta suporte financeiro para as expressões da vanguarda artística, que crescem vertiginosamente pelos centros urbanos.

- NOITE TRANSFORMADORA
A noite de SP é uma das melhores do mundo. Poucas cidades do planeta oferecem tantas opções noturnas de entretenimento, todos os dias da semana. Precisamos valorizar e apoiar a noite, porque, mais do que diversão, ela gera empregos e inclusão social e revitaliza bairros como o que acontece no Baixo Augusta.

VEJA MAIS SOBRE O TEMA AQUI:

http://ale.org.br/economia-criativa/

 

 

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Postado em 12.07.2010 | 14:07 | Alê Youssef
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A política sempre fez parte da minha vida. No colégio, fui representante de classe e lembro de brigar pela criação do grêmio estudantil. Era época do impeachment do Collor e eu procurava um meio de me expressar diante dos acontecimentos. Na universidade, fui presidente do centro acadêmico da faculdade de direito. Foi um período em que convivi com grandes juristas, como o advogado José Carlos Dias, que foi muito importante na minha vida. Também fui coordenador do Núcleo de Cidadania do Mackenzie. Nessa época, conheci o Betinho, meu maior ídolo e meu grande guru. Participei da Ação da Cidadania, a famosa campanha dele de combate à fome. Depois de formado, dei aula de política e cidadania em colégios de São Paulo e frequentei a Escola de Governo - curso de formação de governantes.

Em 1999, fui pego de surpresa. O José Carlos Dias foi nomeado ministro da Justiça e me convidou para ser seu assessor particular. Mudei pra Brasília e acompanhei o ministro pelas capitais do país e pelo exterior e participei da discussão sobre uma nova e moderna política de segurança pública.

Um ano depois, estava em São Paulo participando da campanha de Marta Suplicy à prefeitura. Eleita, ela me convidou para implantar a Coordenadoria da Juventude, órgão que coordenei durante os quatro anos de governo. Nessa época, criamos vários projetos relacionados à cultura jovem. Em 2004, participei do lançamento da candidatura da Soninha à câmara dos vereadores, coordenei sua campanha e fui seu chefe de gabinete por dois anos.

OFICIAL E UNDERGROUND

Nas minhas experiências privadas, o aspecto público sempre foi marcante. No Studio SP, casa noturna da qual sou sócio, criamos uma plataforma de lançamentos da nova música brasileira, revelando uma cena que hoje ocupa lugar de destaque. Participei da criação do Overmundo - site colaborativo feito para difundir a cultura brasileira. Além disso, assino esta coluna na Trip, que me estimula a debater e propor novas alternativas pra nossa política.

Apesar de tudo, confesso que sempre tive certa vergonha de assumir que meu caminho era o da política. Mas, nos últimos meses, uma série de acontecimentos transformou essa vergonha em orgulho, porque, de certa forma, os mundos da política e da cultura se encontraram. O grafite invadiu o Masp na exposição da Choque Cultural e conquistou o espaço merecido. Os Gêmeos e outros artistas que conheci pichando muros se tornaram reconhecidos internacionalmente. Reunimos mais de mil pessoas no Festival de Política da Trip no ano passado, e o Studio SP se inseriu num grande processo de revitalização da região hoje conhecida como Baixo Augusta, que rendeu até bloco de Carnaval.

Participei de experiências e convivi com personagens importantes nas viagens oficiais e nos gabinetes, mas também mergulhei no imaginário underground de São Paulo e conheci a vanguarda. Sinto-me preparado para juntar esses dois universos, que podem parecer distantes um do outro, mas, na verdade, não são. Tanto a política precisa largar a caretice como nossa geração precisa se engajar para ser representada.

É por tudo isso e estimulado pela querida Marina Silva, com quem fui para o PV em busca de um novo jeito de fazer política, que aceitei o desafio de lançar minha candidatura a deputado federal. Como não farei uma dessas campanhas caríssimas, bancadas por lobbies que comprometem a atuação de todos os políticos, nem vou cair na demagogia do curral eleitoral que compra votos, é pela internet que vou expor minhas ideias. Para conquistar o voto de quem pensa como eu e para elevar o nível do debate político.

Alê Youssef, 35, é sócio do Studio SP e foi um dos idealizadores do site www.overmundo.com.br. Seu e-mail é ayoussef@trip.com.br">ayoussef@trip.com.br

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Postado em 04.07.2010 | 11:07 | Alê Youssef
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Artistas de todo o Brasil, sensibilizados com a tragédia no Nordeste, realizarão no próximo dia 14 de julho (quarta-feira) um show em prol das vítimas dos alagamentos em Pernambuco e Alagoas.

Sob o título de “Nós pelo Nordeste”, o evento que acontece no Comitê em São Paulo é uma iniciativa de Ale Youssef, Biba Berjeaut — da distribuidora ôLôko Records — e Daniel Ganjaman.

O show contará com uma das formações flutuantes do Instituto como banda base, e já estão confirmadas as participações de DJ Zegon (N.A.S.A.), Pupillo (Nação Zumbi), Edgard Scandurra, Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Otto, Kamau, Emicida, Karina Buhr, Curumin, Pitty, Anelis Assumpção e Junio Barreto. Toda renda arrecadada com ingressos será revertida para a causa.

Nós pelo Nordeste
COMITÊ - Rua Augusta, 609 - São Paulo.
Ingressos R$ 25,00 www.ingressorapido.com.br
Aceita todos os cartões: Master/ Diners / Visa / Visa Electron
/ Amex / Rede Shop.  Aceita cheque.
Abertura da casa às 22h, início do show às 0h.
Fechamento da cozinha 3h. 
Informações [11] 3237-3068

Informações para a imprensa
namídia assessoria de comunicação
márcia fonseca |mercedes tristão
jornalista responsável. mirella rossini
mirella@namidiacom.com.br
11 3034 5501 [ramal 213]
11 7735 9595 CD 55*93*35205

Agenda e programação
jornalista responsável. carola gonzalez
carola@namidiacom.com.br
11 3034 5501 [ramal 217]

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Postado em 28.05.2010 | 13:05 | Alê Youssef
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Sao Paulo unleashes Brazilian creative energy

Page last updated at 9:09 GMT, Friday, 28 May 2010 10:09 UK

Graffiti art in Sao Paulo. Photo by Juliana Ferreira Street art: a section of the graffiti in Sao Paulo's Vila Madalena district

 

It is known Batman's Alley and on Google Maps it looks like any of the hundreds of narrow inner streets that twist and turn within Sao Paulo's blocks.

What makes it different and cannot be seen from above is that every single wall in its 100m extension is covered top-to-bottom with graffiti of all shapes and colours.

The graffiti here are not the average large-letter tags, although there is a lot of that.

Batman's Alley or Beco do Batman, in Portuguese, resembles more an open-air street art gallery, where abstract, surreal, psychedelic and geometric paintings colourfully co-exist.



You only need to drive for a few blocks in Brazil's biggest city to encounter its thriving graffiti culture.

It is the most visible expression of a new, creative, buzzing Sao Paulo that has emerged in the last 10 years.

A vast and diverse network of musicians, playwrights, film-makers, painters, cartoonists, actors, singers, DJs, writers, poets, dancers, architects and fashion designers have not only been busy producing work but are also helping to lend 21st Century Sao Paulo a cosmopolitan, artistic edge which is unprecedented.

"Foreigners use the word 'energy' a lot to describe Sao Paulo," says Baixo Ribeiro, who along with his wife Mariana Martins, has fostered and promoted urban and street artists since 2003 through their gallery Choque Cultural.

"They say they feel a vibe which is different to other places. It has a lot to do with the zeitgeist: Brazil and other countries which were always secondary but that are now emerging strongly."

Baixo and Mariana's gallery is a true pioneer in Brazilian art.

They were the first in the country to tap into new urban art forms such as graffiti, stickers, posters and tattoos and place them in a gallery where they could earn critical respect, reach a wider audience and be commercialised.

Last December, Sao Paulo's Paulista Avenue hosted a watershed moment.

Draped over the modernist concrete and glass block that is Sao Paulo's MASP art museum, home to Van Gogh and Monet paintings, was a huge banner announcing an exhibition with several of the city's graffiti artists, curated by Choque Cultural.

"MASP invited us to bring our work to a larger audience. The six participating artists created an environment with a lot of visual 'volume', with nearly 100% of the place painted with massive doses of spray can, acrylic and other materials," explains Baixo.

The exhibit was a success, with 135,000 visitors in 10 weeks.

Brazilian urban art has travelled much further though.

Osgemeos (literally, the twins), two brothers from Sao Paulo's northside, are to Brazil what Banksy is to the UK: street artists who have become household names.

They have displayed their work at the Tate Modern in London (alongside fellow Brazilian artist Nunca), customising the museum's facade.

Osgemeos have also taken their work to Japan, the US, Greece, Spain, Switzerland, Italy and Cuba.

Studio SP Studio SP has helped to launch Brazlian acts

 

"What's going on has a lot to do with the city's entrepreneurial spirit," says Alexandre Youssef, one of the owners of Studio SP club, a key venue for a whole new live music scene.

"In previous decades, it had to do mainly with industry, then services. Now it is visible in the creative industry," he says.

Mr Youssef is also involved in politics: he is running for a seat in the national Congress in this year's elections.

His platform is the development of the creative industry in Sao Paulo, which he says has had very little support from local authorities.

Decorated with fine examples of urban art (including a painting by Osgemeos), Studio SP has hip music-lovers lining up every week to enjoy a vast array of music: rock, dub, new Brazilian pop, folk, electronic.

"There has been an explosion of live, authorial music over here, with artists like Mallu Magalhaes, Curumim, Cibele, 3 na Massa," says Youssef.

Brazilian singer Ceu Ceu: One of Sao Paulo's musicians to also find recognition abroad

One artist who Studio SP helped to launch was Sao Paulo-born Ceu.

The delicate-voiced singer went on to become the most important names of a new generation of Brazilian female singers.

Ceu has been praised in US publications such as Spin and Rolling Stone. She has toured extensively abroad, playing in major events such as the North Sea Festival in Holland, and Coachella in the US.

Studio SP is located in a central area known as Baixo Augusta.

Only five years ago, it was mainly gawdy strip joints, transvestite salons and dilapidated buildings.

These are all still there, but they have been joined since by dozens of trendy clubs, bars and live venues, making Baixo Augusta Sao Paulo's answer to London's Shoreditch.

By transforming areas such as Baixo Augusta, Sao Paulo's cultural boom is also helping to revitalise once run-down areas in the city's central area.

Another good example of this is nearby Plaza Roosevelt, once an almost derelict area, now a hub of alternative theatre, dotted with bars and small theatrical venues.

However, as Rodolfo Vazquez, a director at the Satyros company, explains, revitalisation does not have to mean gentrification.

"We never wanted to expel the transvestites and drug dealers which dominated the area. On the contrary, we try to integrate them, understand their problems and their social habits. We have even managed to bring some into the group's plays."

Melting pot

"Sao Paulo is one of the coolest cities in the world right now. As it is relatively far from the world's main metropolises, the culture has developed on its own terms," say Laima Leyton and Iggor Cavalera who together deejay and produce electronic music under the name Mixhell.

Cavalera reached global fame as the drummer of Brazilian heavy metal band Sepultura.

Batman Alley Sao Paulo: A place where different cultures meet

Some years ago he turned his attention to dance music and formed Mixhell with his wife Laima. With a busy diary of gigs abroad, they will play the Glastonbury music festival in the UK this year.

Mixhell are one of many acts to emerge from Sao Paulo's vibrant clubbing scene and gain international prominence.

Others include DJ Marky, who had a UK chart hit with LK back in 2003, and Gui Boratto, who is signed to German label Kompakt and has remixed Goldfrapp and the Pet Shop Boys.

"Sao Paulo is a very dynamic place, where different cultures meet," say Iggor and Laima.

The melting pot aspect is also highlighted by Youssef.

"People from all over Brazil come here. The city tends to attract enterprising, creative people, who come after an environment where they can make things happen. Sao Paulo is open to everyone."

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Postado em 20.05.2010 | 20:05 | Alê Youssef
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MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo


Se eu fosse Deus e se eu existisse, executaria em São Paulo uma prosaica providência administrativa. Tombaria a cidade inteira pelos próximos dez anos: como está, fica. Não se derruba mais nada, não se constrói mais nada. Tratem de melhorar a cidade que já existe: monstruosa, desigual, mal planejada e mal cuidada. Se é para movimentar dinheiro, invistam-se nos espaços públicos: ruas, praças, jardins, calçadas, iluminação, centros de lazer, prevenção contra enchentes - tudo o que faz, de um amontoado de moradias, algo parecido com a magnífica invenção humana chamada cidade. Investir em urbanidade também dá retorno financeiro.

Vista assim do alto, do ponto de vista celeste, São Paulo mais parece uma cidade bombardeada. Imensas crateras em todos os bairros, quarteirões de casas derrubadas, populações pobres jogadas de lá pra cá à procura de lugar para criar novos campos de refugiados de onde serão expulsas pouco tempo depois. Inundações, trânsito bloqueado, gente desesperada presa dentro dos carros parados, gente enlouquecendo pela dificuldade de tocar o dia a dia. Gente que sente no corpo e na alma os efeitos de viver sob uma cúpula negra de poluição que só se vê de cima. Parece uma guerra, mas é só o capitalismo: bombando, enriquecendo alguns e empobrecendo o resto. Enquanto a cidade se torna infernal, se oferece aos que podem pagar o lenitivo de viver numa torre, bem acima do chão, de onde se finge escapar da realidade urbana. O uso novo-rico da palavra torre substituiu as obsoletas "edifício" e "prédio", além da simpática e infantil "arranha-céu". Nas histórias de fadas, a torre era o lugar onde se encarceravam as princesas. Privilégio em São Paulo é viver encerrado numa torre.

Mas como parar todos os negócios imobiliários da cidade? E a economia? E a geração de empregos? Digamos que, se eu fosse Deus, daria um jeito nisso. Se uma prefeitura rica como a nossa, em vez de se tornar cliente de um setor poderoso, investisse os impostos que recebe em outras atividades, em pouco tempo a cidade recuperaria sua pujança. Digamos que seja possível planejar um pouco a economia municipal. Só assim deixaríamos de ser reféns de quem já detém poder econômico. Dez anos são menos que uma fração de segundo pra quem vê o tempo do ponto de vista da eternidade. Mas quem sabe, tempo suficiente para que a cidade pudesse eleger uma nova prefeitura e uma câmara dos vereadores livres de compromissos com o poderoso Secovi, maior sindicato de comércio imobiliário da América Latina.

Mas - em nome de que Deus faria uma coisa dessas? Em nome de que impediria a cidade de, digamos - "crescer"? Não, Deus não precisaria ser socialista. Nem urbanista. Bastaria agir em nome de um valor que está presente em todas as perspectivas sagradas, religiosas ou simplesmente humanistas: em nome da delicadeza. Bastaria considerar que as cidades não existem para impressionar e oprimir as pessoas, mas para ampliar a esfera da liberdade, das possibilidades e daquilo que se costuma chamar de urbanidade.

Nesse ponto convido o leitor a trocar a vista aérea de São Paulo pelo ponto de vista pedestre. Basta descer um pouco do carro e passear a esmo pelas ruas. Se achar a proposta muito mixuruca, finja que é Baudelaire flanando por Paris no século 19, tentando captar o que sobrou da antiga cidade depois da monumental reforma executada por Haussmann a mando de Napoleão III. Ou finja que você é o João do Rio, cronista da capital brasileira reformada por Pereira Passos. A diferença, claro, é que essas duas enormes destruições/reconstruções urbanas foram planejadas visando a modernizar o espaço público, enquanto hoje a construção civil compra o poder público e faz literalmente o que quer em nome do interesse das pessoas, isto é, do mercado. Parece que o mercado é igual à soma das vontades das pessoas. Não é. O que chamamos mercado é um dispositivo formado por poucos, porém grandes interesses, que se impõe às pessoas de modo a determinar o que elas devem querer.

O que será de uma cidade que destrói todas as suas reservas de delicadeza, de graça, de modéstia? Caminhe um pouco pelas ruas de seu bairro em busca dos cantinhos que ainda não foram devastados por alguma obra grandiosa e brega. O que será de uma cidade sem varandas? Sem janelas dando para a rua - e o gato que espia pelo vidro de uma delas? O que será de nosso convívio diário numa cidade sem o pequeno comércio da rua, responsável pelo território coletivo onde as pessoas aos poucos se conhecem, se cumprimentam, conversam? Uma cidade sem zonas de familiaridade? O que será de uma cidade sem as vilas com casas antigas onde o pedestre entra sem passar por uma guarita e encontra um micro-oásis de sombra e silêncio? Sem a minúscula pracinha que sobrou numa esquina onde se esqueceram de construir outra coisa? Procure os lugares em que ainda seja possível o encontro entre o público e o privado, o íntimo e o estranho, o desafiante e o acolhedor. O que será de uma cidade que é pura arrogância, exibicionismo e eficiência? O que será de nós, moradores de uma cidade que despreza a vida urbana?

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Postado em 19.05.2010 | 14:05 | Alê Youssef
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Nos últimos meses, uma série de acontecimentos, aproximaram os mundos  da cultura e da política.

A exposição da Choque Cultural no MASP, o reconhecimento internacional e institucional de artistas como OsGemeos, o Fertival de Política da Trip lotado em pelno domingo, a produção colaborativa e comunitária do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta  e o próprio movimento original de revitalização urbana que ocorre no Baixo Augusta são exemplos disso.

Na semana passado outro evento simbólico e muito importante entrou nessa lista. O pré lançamento do documentário Dirty Money no MuBe foi um exemplo de mobilizacão social, pois juntou uma parcela expressiva e importante dos atores da cultura alternativa brasileira. Além disso, foi um marco da evolução do skate do ponto de vista esportivo e econômico.

O documentário de Alexandre Vianna e Ricardo Koraicho retrata uma geração que revolucionou a cultura de rua através do skatebording. Com o desastroso plano Collor, a cena do skate no início dos anos 90 estava falida. Motivados pelo espírito 'faça você mesmo" alguns amigos ainda adolescentes se juntaram para combater a péssima situação através da gravação de um vídeo de skate, chamado Dirty Money.

O vídeo, sucesso instantâneo, contagiou skatistas de todo país e motivou ações que podem ser consideradas fundamentais para a retomada desse esporte que cresce e se consolida a cada dia no Brasil.

Estive muito perto do movimento do skate no início dos anos 2000, na época em que fui Coordenador de Juventude da Prefeitura de São Paulo. Em conjunto com Ale Vianna e a Confederacão Brasileira de Skate, desenvolvemos um jeito novo e diferente de relação entre poder público e movimento social. Foram contruídas 64 pistas na cidade, com consultoria especializada dos próprios skatistas e apoiados centenas de campeonatos e atividades relacionadas ao esporte. Hoje em dia, o trabalho de anos atrás, colhe frutos como o reconhecimento generalizado - tanto pelo mercado como pelo poder público - de um esporte antes tão marginalizado, além dos ganhos esportivo e cultural que equipamentos e eventos como os realizados são capazes de proporcionar.

Ao ver o MuBe lotado de gente - coisa que aliás é rara naquele espaço, senti uma sensação parecida da que tive no lançamento da exposição da Choque Cultural no Masp. Assim como na invasão do grafitti ao principal museu do Brasil, depois de alguns minutos de alegria pelo palco nobre, constata-se que o Dirty Money e o skate hoje são muito mais importantes para revitalização de espaços como o Mube do que vice versa.

Isso acontece pois o movimento ganhou tamanha importância e capilaridade social que quando observamos com atenção, percebemos que trata-se de algo que faz parte da identidade da cidade e que realmente, como disse acima, é um grande exemplo de aproximação da cultura com a política. E o filme retrata isso perfeitamente.

Vejam a história da enorme e organizada cultura do Skate, que mudou a cara de São Paulo.

 

 

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Postado em 12.05.2010 | 22:05 | Alê Youssef
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ESTÁ EM curso a segunda fase do debate que está construindo um Marco Civil para a internet no Brasil. Trata-se de um processo inovador, aberto a toda sociedade. A iniciativa é do Ministério da Justiça, em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas (CTS-FGV).
Seu objetivo é estabelecer as regras fundamentais para a rede no país.
Não através da criminalização, nem da restrição a direitos, mas, sim, pela concretização na rede dos direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição. Seus pilares são a defesa da privacidade, da liberdade de expressão, a criação de salvaguardas para sites e blogs, a garantia de direitos básicos de acesso à rede e a ampliação do acesso a dados governamentais.
Em síntese, ele propõe que o acesso à internet é requisito para o exercício da cidadania no mundo de hoje.
Contrapõe-se a uma tendência brasileira e global de criminalização e restrição a direitos na rede e é produto da intensa mobilização da sociedade civil contra projetos de lei que radicalizam a regulamentação da rede.
Dentre eles, o polêmico projeto de lei nº 84/89, que, na redação atual, estabelece crimes excessivamente amplos, que levam à restrição de direitos dos usuários. É equivocado estabelecer que os conflitos na rede devam ser decididos essencialmente pela esfera criminal, como quer esse projeto.
O Marco Civil é necessário porque hoje, depois de mais de 15 anos de acesso público à internet no país, ainda convivemos com a ausência de regras. Apesar disso, o Judiciário é chamado constantemente para decidir conflitos. Mas, como não há legislação específica, as decisões acabam sendo contraditórias.
Um exemplo é a ordem judicial que mandou bloquear o acesso ao YouTube em todo o Brasil por conta de vídeo da modelo Daniella Cicarelli em situação íntima em praia da Espanha.
Filtrar um site na raiz da conexão de um país é medida extrema, adotada em geral só por regimes autoritários, como China ou Coreia do Norte.
Com a ausência de regras, são comuns também os casos de blogueiros, sites e provedores condenados automaticamente por conteúdos de terceiros. Um exemplo é o autor de um blog no Ceará que foi condenado em R$16 mil por conta de um comentário postado no site.
O objetivo do Marco Civil é reduzir essa atual situação de imprevisibilidade e desenhar os limites da responsabilidade na internet, de forma que blogs, sites e provedores não sejam responsabilizados automaticamente por qualquer conteúdo de terceiros.
Com isso, estimula-se o amadurecimento da "websfera", criando melhores condições para quem quer inovar e empreender na rede brasileira.
A proposta do marco é de ponderação, de equilíbrio entre interesses diversos. Nesse sentido, seu texto inicial apresentou uma solução intermediária para a questão, baseada nas contribuições recebidas e nos modelos adotados na Europa e nos EUA.
Por ele, sites e blogs somente seriam responsáveis por conteúdos de terceiros se, notificados pelo ofendido, não agissem para removê-lo.
No entanto, o autor seria informado da notificação e teria a chance de contranotificar, mantendo o conteúdo no ar e assumindo a responsabilidade por ele. Qualquer terceiro poderia fazer o mesmo, protegendo conteúdos na rede. Esse sistema privilegia as próprias partes, que se tornam protagonistas da solução do conflito, sendo o Judiciário chamado apenas quando necessário.
Após três semanas de amplo debate, essa solução não pareceu ser a mais adequada. As contribuições enviadas individualmente e por instituições apontaram em outro sentido: o de que provedores, sites e blogs só devem remover conteúdos de terceiros a partir de uma ordem judicial, e não quando notificados pelo ofendido.
Com isso, a nova proposta foi incorporada e passa a ser objeto do debate.
Qual deles é o melhor caminho?
Não cabe nem ao Ministério da Justiça nem ao CTS-FGV decidir. A solução final será construída através da participação ampla de indivíduos, organizações e entidades de classe, que podem contribuir pelo site www.culturadigital.br/marcocivil até o dia 23 de maio. O texto do Marco Civil é o ponto de partida.
O compromisso de todo o processo é com o debate. E já existe um consenso importante: qualquer regulação da internet no Brasil deve ser necessariamente precedida de ampla discussão, valendo-se para isso das possibilidades de participação do nosso tempo.


RONALDO LEMOS, mestre em direito pela Universidade Harvard e doutor em direito pela USP, é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e colunista da Folha.

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Postado em 26.04.2010 | 18:04 | Alê Youssef
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Confira abaixo entrevista de Massimo di Felice (foto) que é Doutor em Ciências da Comunicação e professor da USP, para o jornal O Estado de S.Paulo.


 
por Christian Carvalho Cruz, de O Estado de S. Paulo


 A política como conhecemos hoje pode ser, muito em breve, um retrato embolorado na parede. E o político profissional, um desempregado irremediável, com saudade dos "bons tempos" pré-internet. Não, essa não é a última do admirável mundo novo. É a opinião de alguém que o acompanha com olhos de cientista: o sociólogo italiano Massimo di Felice. Doutor em Ciências da Comunicação, especialista em mídias digitais, ele leciona Teoria da Opinião Pública na Escola de Comunicação de Artes da USP. Acredita que a humanidade vivencie neste momento algo tão grandioso quanto o surgimento da prensa de Gutenberg no século XV: é o tempo em que a web vai levar ao desaparecimento do tipo de política e de político que existem hoje.

GALERIA: Qual é o seu recado?

Para afirmar isso ele não leva em conta apenas a tecnologia em si, gelada em seus inesgotáveis twitters, orkuts e facebooks. Seu objeto de análise é a nova realidade que está nascendo daí, vertiginosa e quase silenciosamente. "A internet e as redes sociais online estão criando uma nova democracia e uma nova opinião pública." O que é particularmente interessante em temporadas como esta, de caça à tal opinião pública empreendida pelos institutos de pesquisa que tentam medir os humores e os pendores eleitorais dos brasileiros.

Mas alto lá com os antigos conceitos, previne Di Felice. "Essa opinião pública  que está surgindo não quer ser chamada a opinar apenas de quatro em quatro anos. Ela participa, colabora, difunde ideias para mudar seu território cotidianamente. É cidadã 365 dias por ano. Está fazendo acontecer o que os políticos só prometem." O efeito imediato disso - para as eleições presidenciais de outubro - será mínimo, ele reconhece, dada a predominância, ainda, da opinião pública televisiva no País. Mas no futuro será algo decisivo.

Na entrevista a seguir, Di Felice empreende um passeio pela história e o desenvolvimento da opinião pública e, otimista, explica aonde, agora cada vez menos analógica, ela pode nos levar.

O que é opinião pública?

É um conceito que nasceu com a substituição da sociedade feudal pela sociedade a contrato social. Nasceu com a destruição do modelo baseado no rei que era rei por ter sido colocado no trono por Deus (e, por isso, emanava leis inquestionáveis) e com o surgimento dos primeiros mercadores que deram origem à burguesia. Foi uma passagem econômica, social, cultural e política. A sociedade que nasce daí não é mais assentada em valores divinos, "justos", e sim em códigos racionais, que tem mais a ver com a necessidade de organizar as coisas ao gosto da nova classe que ascende ao poder e vai fazer leis para defender seus interesses. Serão, portanto, leis "injustas". Mas, como elas podem ser questionadas, afinal não vieram do poder divino do rei, haverá a necessidade de lutar para mudar tais leis. Nessa imperfeição está uma das características da sociedade a contrato social, que cria pela primeira vez a separação clara entre sociedade civil e Estado.

Então a opinião pública é filha da democracia moderna?

Ela é o alicerce da democracia moderna. Não é apenas a expressão dela, um instrumento a mais. Não há democracia sem conflito, sem opinião. E o que resulta dessa passagem do feudalismo para o mercantilismo burguês é uma sociedade dada ao conflito, a tal sociedade civil - um conjunto de indivíduos, grupos, etc., que se reúnem contra o Estado. Então, é nessa imperfeição que se desenvolve o conceito de opinião pública, não só como lugar de divulgação, mas de elaboração contínua de ideias. É fácil compreender o porquê disso. Com seu dinamismo econômico, a sociedade a contrato social necessita de transformações constantes de valores. Isso muda completamente o comportamento das pessoas, elas passam a valorizar as mudanças, o progresso, contra a estagnação pré-definida por seu nascimento, como ocorria no modelo feudal.

Esse conceito de opinião pública se mantém até hoje?

Ao longo da história ele foi contestado por uma porção de teorias, principalmente depois do surgimento da mídia de massa e do uso que o nazismo, o fascismo e regimes autoritários em geral fizeram dela. Isso levou muitos autores a pensar que a opinião pública era só um doutrinamento da população. Ela teria tão somente a opinião que o status quo quisesse que ela tivesse e manipulava para conseguir. Para esses autores, opinião pública é alienação. Por aí caminhou Adorno (Theodor Adorno, filósofo alemão), chegando a Bourdieu (Pierre Bourdieu, sociólogo francês), para quem a opinião pública simplesmente não existe. Ele dizia isso, na verdade, como provocação. Na França da época, anos 60/70, ele queria questionar o uso demagógico que se fazia das pesquisas de opinião. Todas as ações dos entes públicos e privados eram justificadas por pesquisas de opinião. E Bourdieu vem dizer que essas pesquisas não davam necessariamente a opinião das pessoas, davam a opinião que as pessoas tinham formado a partir do doutrinamento. Portanto, a opinião pública não existia.

E nos dias de hoje, ela existe?

Existe, mas de um jeito totalmente diferente. Na minha avaliação, a opinião pública muda de caráter de acordo com a tecnologia informativa de uma época. No tempo da oralidade, tínhamos os filósofos, os sofistas. Com Gutenberg e a sua máquina de reproduzir grande quantidade de páginas, surge a opinião pública dos tempos modernos, mais ampla, instigada a debater pelo acesso mais fácil ao conhecimento. Depois, a mídia de massa - jornais, rádios e TV - dá origem às democracias nacionais, à esfera pública do tamanho de uma nação. Afinal, a mídia de massa consegue atingir toda a população ao mesmo tempo. Aí chegamos aos tempos atuais, à internet. E a coisa vira de cabeça para baixo. A internet cria uma arquitetura informativa absolutamente distinta das anteriores e, mais do que isso, cria um novo tipo de democracia e um novo tipo de opinião pública.

Pode explicar melhor?

Com a internet, passamos da democracia opinativa para a democracia colaborativa, na qual todo cidadão é chamado não a mudar o mundo, a fazer revolução, nada disso. Ele é chamado a ter um impacto na sua realidade próxima. Se olharmos para o teatro grego, os livros, os jornais, o rádio e a TV notamos que o modo de transmitir as informações se manteve constante. O ator de teatro fala, o público ouve em silêncio; no final aplaude ou vaia, ou seja, opina. Na TV é a mesma coisa. Quando assistimos a um debate eleitoral os candidatos falam e nós acompanhamos tudo passivamente e depois vamos votar - opinar - sobre propostas e programas de cuja elaboração não participamos. É a democracia baseada na opinião. O cidadão é cidadão na medida em que ele opina de quatro em quatro anos. A internet inaugura um tipo de democracia qualitativamente diferente.

Como ela funciona?

Primeiro, a comunicação em rede é uma tecnologia que pela primeira vez disponibiliza não só o acesso a todas as informações como também possibilita que cada indivíduo crie conteúdo e poste esse conteúdo com o mesmo poder comunicativo dos outros meios. Tecnologicamente, um blog tem o mesmo poder comunicativo que a CNN. Isso está educando o cidadão não apenas a opinar, mas a criar debate e a discutir ideias que se espalham velozmente pelo mundo. São as chamadas redes sociais, redes de cidadãos que se reúnem por terem determinadas afinidades e passam a trabalhar online para transformar a sociedade pela proposição, discussão e implementação de ideias. Primeiro no seu território, sua rua, seu bairro, sua cidade, depois no país e mundo. Chamamos isso de net-ativismo. Não se trata de uma questão ideológica, de fazer a revolução com a ajuda da internet. Não é isso.

E que tipo de opinião pública está sendo gestada nessa era de net-ativismo?

Uma opinião pública que não quer ser só opinativa. Não quer só opinar com base numa pauta estabelecida pela mídia e pelos políticos. A rede está criando, de fato, uma nova realidade em que as pessoas se afastam cada vez mais da política partidária, do debate político profissional, porque acham que isso não resolve nada. Meus alunos têm total desinteresse pelas questões políticas tradicionais, mas de maneira alguma podem ser chamados de alienados, porque estão em redes sociais, integram grupos que trabalham com reciclagem de lixo, inclusão digital, acesso à informação. Estão tentando modificar o seu território 365 dias por ano. Eles são cidadãos o ano inteiro, não só a cada quatro anos. Para esse pessoal o voto é a última coisa na qual eles estão pensando. A lógica da web não é piramidal, não prevê um líder. A palavra-chave é colaboração. Assim, se há alguém que eles enxergam como representante, é necessariamente alguém que esteja nessas redes sociais desde sempre, discutindo, propondo, ajudando a levantar verbas para projetos. O que eu estou tentando dizer é que a política analógica é obsoleta, porque unidirecional. Podemos chamar isso de fascismo se adotarmos a etimologia grega da palavra "fascio", que significa seta, algo que aponta, direciona. Estamos no caminho contrário. Pode levar 10, 20 anos, mas estamos indo claramente na direção de uma democracia totalmente colaborativa.

Essa nova ordem já deve influenciar as eleições deste ano?

Provavelmente não. Mas estou certo de que, nesta campanha presidencial, teremos surpresas vindas do mundo digital. A web será um lugar de desmascaramento. Esse movimento é maior do que imaginamos no Brasil. Um sinal claro disso é que já há no País mais gente usando a internet para acessar redes sociais do que para ver pornografia. Temos um curso de pós-graduação muito procurado por pessoas que vão trabalhar com marketing político. Os alunos perguntar a mesma coisa: "Como eu uso o Twitter para ajudar meu candidato a vencer a eleição?" Eu digo: "Você não pode. Se entrar com essa intenção a mesa vira sobre você".

Por quê?

Imagina só isso: o político utilizando a web como utiliza a TV - para mentir, basicamente. Essa é muito boa (risos). Na rede, uma mentira dura dois minutos. E, uma vez descoberta, centenas de pessoas vão ter o prazer de denunciá-la. Isso aconteceu com o Lula. Um dia ele resolveu que queria ser Barack Obama e fez um blog. Só que não permitiu comentários. Poos alguém duplicou o blog dele num espaço aberto para comentários. Uma lição de que não dá para se aproveitar da internet dessa maneira. Uma vez dentro da rede ele terá de se submeter às regras dela, que não têm nada a ver com as regras da TV. O problema é que os políticos, seus estrategistas e marqueteiros querem transferir o passado para o novo. Eles não têm a menor noção dessa nova democracia, dessa nova opinião pública que está nascendo. Querem entrar num contexto no qual o político é visto com maus olhos. A imagem dele é negativa, porque tradicionalmente ele representa o contrário do que se faz ali. Ele tem uma proposta pronta e, através da sedução, busca obter consenso da maioria da opinião pública para se eleger. A comunicação parte dele e volta para ele. A internet permite outro modelo: que ele apresente sua proposta, que vai ser continuamente debatida, modificada e aprimorada - e daí vai nascer o consenso.

Quer dizer que no futuro os candidatos a representantes do povo podem surgir das redes sociais da internet?

E é provável que eles sejam completos desconhecidos para quem estiver fora dessas redes. A função do político tradicional tende a desaparecer. Não vai ter mais aquela coisa de ele prometer fazer, porque a nova opinião pública formada por essas pessoas conectadas em redes sociais já está fazendo sem ele.

Mas qual o peso real dessa nova opinião pública em termos eleitorais no Brasil?

Por enquanto, pequeno. A opinião pública cobiçada pelos políticos é a televisiva. Aquela suscetível à propaganda e ao marketing político. O cenário está mudando rapidamente, mas quem vence eleição ainda são os marqueteiros. A TV tem regras precisas que são dominadas com perfeição por eles. Quanto mais o político se submete ao marqueteiro, maior a sua chance de vitória. Então, dizer que a Dilma não tem experiência em cargos executivos, por exemplo, pesa pouco para essa opinião pública televisiva. Já ela fazer plástica ou, do lado de lá, fotografar o Serra em pose de Obama, com a mão segurando o rosto, pedir para ele sorrir mais em público, isso sim tem impacto na opinião pública televisiva. O fato é que nem Serra nem Dilma são capazes de conquistá-la sozinhos. Ambos dependem dos seus marqueteiros.

Pesquisa eleitoral que ouve 3 mil pessoas capta o que pensa a opinião pública?

No contexto atual de política do espetáculo, política que associa aos conteúdos as imagens televisivas, deve-se reduzir a importância normalmente atribuída às pesquisas de intenção de voto. Uma vez que a política deixa de ser doutrina ideológica para se assumir como arte dramatúrgica, a disputa eleitoral se torna algo muito próximo de um reality show. E aí o que vale é o excesso e a surpresa, a presença midiática, o ataque ao adversário, a construção de uma imagem que se pretende vencedora.

As enquetes mostram que 60% dos eleitores não sabem dizer espontaneamente o nome de um pré-candidato à Presidência da República. O que isso significa?

Significa o afastamento da política do público. Não do público da política. A política partidária, feita por lobbies preocupados apenas em se manter no poder, não interessa, cansou. E não é por motivos ideológicos, já que no fundo as diferenças entre políticos e partidos são muito pequenas. É porque a humanidade se deu conta de que a classe política é um grande câncer, no mundo inteiro. A política tradicional é feita pelas pessoas menos qualificadas - reservadas as devidas exceções, obviamente. Só que do outro lado, na rede, há cidadãos ativos, conscientes, exercendo sua cidadania diariamente, que não entram nesse jogo antigo. Isso explica as altíssimas taxas de abstenção nas eleições na Europa, que beiram 50%. A população está cansada e, por meio da internet e das redes sociais, quer reformular isso. Me parece que temos agora a alienação dos políticos em relação a essa nova opinião pública, à política real, nas quais a sociedade cada vez mais organizada na web está construindo uma realidade melhor, independentemente das disputas eleitorais.

 

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Tópico: Liberdade
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Postado em 14.04.2010 | 10:04 | Alê Youssef
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Recentemente assisti pela segunda vez o filme MILK, que conta a história do primeiro gay a se eleger a um cargo público nos Estados Unidos. Ativista de vanguarda, Harvey Milk - interpretado brilhantemente por Sean Pen - liderou uma verdadeira revolução em São Francisco, despertanto o interesse político em pessoas absolutamente alienadas e excluídas do sistema, lutando por direitos civis, desbancando preconceitos e criando um jeito diferente de fazer política. Baseado em Castro, bairro decadente que abrigava imigrantes e loucos, Milk conseguiu usar todas as expressões comportamentais do universo gay e canalizá-las brilhantemente para um movimento de afirmação e um projeto de poder que se mostrou possível.

Para quem vive no turbilhão da recente explosão da cultura alternativa de São Paulo e, mais especificamente, respira o dia a dia do Baixo Augusta - nome que escolhemos para identificar o trecho em torno da famosa Rua que liga a Avenida Paulista à Praça Roosevelt - impossível não  identificar semelhanças com o ambiente retratado no filme. Assim como Milk e seus amigos sofreram violência, resistência e foram privados de direitos pela sua opção sexual, todos os grupos de comportamento que frequentam o Baixo Augusta convivem à margem do sistema político e são ignorados pelo poder público. Como escrevi nesse blog, os jovens e novos protagonistas da cidade, que deram a ela o brilho e a beleza que nenhum banco, mega empresa ou empreendimento imobiliário conseguiu dar, encaram uma cidade que ignora solenemente o potencial humano e econômico da sua noite e da sua diversidade cultural. Os orgãos públicos insistem em dificultar licenças para funcionamento de bares e clubes, muitas vezes tomam medidas arbitrárias e violentas, criam dificuldades para vender facilidades e permancem distantes dos movimentos culturais e urbanos. O governo olha a cidade de cima pra baixo e não presta atenção nas suas epecifidades, no molho que da o sabor da verdadeira São Paulo. Uma vez por ano, fazem a Virada Cultural, evento bacana mas isolado de uma política estruturada de valorização da vocação maior da cidade.

Vale repetir um conceito que venho falando: toda uma geração está chegando ao poder econômico, judicial, criativo etc. Entretanto, não temos referência dessa escalada social em termos políticos. Os escândalos, a caretice, a imobilidade e todos os outros defeitos que sabemos serem inerentes à política, afastam os jovens dela. Não existe renovação e não temos qualquer sinal de mobilização de massa crítica qualificada em busca de um projeto de tranformação das instituições e de conquista de corações e mentes para tornar a política mais moderna e antenada aos anseios da nova geração. Assim como parte da geração de 60 e 70 se mobilizou contra a ditadura, é preciso que pessoas agora se juntem por uma tranformação comportamental da política e por valores fundamentais como transparência, simplicidade e cabeça aberta para o novo.

Andando ontem pela Augusta, pensei muito nisso. Lembrei de Milk e do Castro, das fachadas das lojas meio detonadas, dos grafites nos muros, dos tipos circulando pela área. A cidade bomba no seu underground e desse universo precisa ser canalizado um movimento de mudança, respeito às diferenças e valorização da cidade. Não podemos mais ver os mesmos tubarões de sempre se elegendo às custas da nossa indiferença e dos seus currais eleitorais comprados por caminhões de dinheiro dos poderosos e conservadores de plantão.

Que o Castro inspire o Baixo Augusta!

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