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Capa da Trip #20
Boxeador e ex-diretor do presídio do Carandiru, Luiz Camargo Wolfmann (mais conhecido como Luizão) foi um nome de peso no setor carcerário brasileiro. Aos 80 anos de idade, ele morreu semana passada em sua casa no bairro do Tremembé, Zona Norte paulistana, após dois anos de luta contra um câncer.
Luizão foi o entrevistado das "Páginas Negras" na Trip #20, publicada em dezembro de 1990. Após comandar por seis anos o maior presídio do Brasil, recebeu a reportagem da revista para uma conversa franca na qual falou de seu trabalho, do esporte na detenção e sobre a condição humana em geral, especialmente atrás das grades, onde viveu boa parte de sua vida.
"O ser humano é podre, rapaz! O ser humano só é bom enquanto ele é bicho. O ser humano é bicho até os seis anos. Ali é adorável, maravilhoso, puro e bacana. Depois faz sete, oito anos e começa a virar gente, aí vira merda. Porque você transforma aquela coisinha pura, inocente e autêntica num monstro. Esse, o teu filho, pequenininho, todo cheio de amor, carinho, chega em casa chorando porque alguém agrediu ele, outro menino agrediu. E você não fala: filhinho, vai lá e dá um beijinho no outro menino. Porque se ele aprender isso, ele tá desgraçado.", disparou. "Eu fico analisando os presos e vejo. Então o que eu aprendi é que na vida só tem uma coisa de bom, a morte. Quer dizer, a morte é ruim pra quem fica, não pra quem vai."
"A cadeia não cumpre o objetivo dela que é recuperar o homem. Para que isso aconteça, é preciso individualizar a pena. Dar o tratamento de acordo com a doença do cara, não pode misturar. Infeluzmente a polícia está prendendo (...) e não tem mais espaço", Luizão comentou na ocasião. "Eu não vou pichar e dizer que o sistema penitenciário não presta (...) mas não atinge seu verdadeiro objetivo. Sua verdadeira finalidade tem sido desviada em razão da super-população carcerária."
Com o boxe, o chefe da detenção do Carandiru tinha uma forma de enfrentar os insurgentes e ao mesmo tempo canalizar a energia dos presos para o esporte. Subindo no ringue contra qualquer um (e segundo o próprio sem nunca levar a pior), ele buscava respeito e uma motivação extra para a vida atrás das grades.
"O boxe é um pouco diferente da maioria dos esportes, ele exige muito do atleta por ser um esporte que é disciplinado. Ele não pode fumar, ele não pode beber mais, ele não pode fazer extravagância. Ele tem que se dedicar porque ele pode ser o maior campeão do mundo, pode ser o Mike Tyson, taí o exemplo: achou que era o tal... se não treinar, dança! Depois o boxe era uma forma de prender. Esse pessoal que vem de uma vida sofrida já tem aquela agressividade no íntimo. Ele quer dar soco. Dentro do esporte é uma forma de conduzir, disciplinar e até manobrar a agressividade deles. Porque lá dentro não tem bandido nem polícia, aqui são bons esportistas com um objetivo: se aprimorar, se purificar e saber como é a regra. Aprender a ter disciplina, porque o boxe tem uma série de normas que tem que ser obedecidas e ele está aprendendo a se controlar, a se dominar, a dominar seus impulsos."
Vai lá: Páginas Negras c/ Luiz Camargo Wolfmann na Trip # 20






